Ambiente virtual de debate metodológico em Ciência da Informação, pesquisa científica e produção social de conhecimento

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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Tropeços na redação científica 5

Segundo o Novíssimo Dicionário Universal de Tropeços na Redação Científica:
  • citalogismo é o termo que designa, ao mesmo tempo, a) a crença de que é possível produzir um bom texto científico apenas colecionando e organizando afirmações já feitas por outros autores e b) as práticas derivadas desta crença, que consistem basicamente na elaboração de textos a partir do uso exclusivo da citalogia;
  • citalogia é a técnica de produção de textos pretensamente científicos, sem a contribuição de qualquer reflexão original produzida por seu autor ou autores.
Em outras palavras, um texto citalogístico é aquele que contém apenas um conjunto mais ou menos organizado de citações de outros autores e que normalmente apresenta, na parte das conclusões, já que é indispensável que ela exista, nada mais que um punhado de reafirmações (por vezes, mas nem sempre, disfarçadas) do conteúdo já apresentado.

O conhecimento científico é formado por um imenso conjunto de afirmações, consideradas como válidas ou corretas, de acordo com os critérios adotados em cada área, sobre cada tema ou fenômeno estudado por ela. O avanço desse conhecimento ocorre quando uma ou algumas daquelas afirmações são aperfeiçoadas, detalhadas ou mesmo substituídas por outras, aceitas como mais adequadas.

Tal como ocorre em todas as outras formas de conhecimentos humanos, os avanços das ciências nunca partem do nada, do zero, para a produção de algo absolutamente novo e original; eles são sempre um aprimoramento ou, às vezes, uma contraposição a algo que já se sabia ou que era aceito como válido.

Por isto é comum e adequado que os autores de textos científicos tomem como pontos de partida para suas reflexões ou investigações, afirmações já elaboradas por outros autores. O problema do citalogismo ocorre quando cientistas e seus discípulos começam a acreditar que textos científicos podem ser apenas coleções de afirmações já lançadas por outros autores e que permanecem tidas como válidas.

Talvez a origem desta prática tenha sido a crença de que os alunos das primeiras séries da graduação, quando participam das suas disciplinas básicas de iniciação, precisam familiarizar-se com as exigências da redação científica mas não possuem, ainda, os conhecimentos suficientes nem as condições intelectuais necessárias para a produção de reflexões próprias e originais. Neste caso, seria aceitável que fosse exigido deles apenas a elaboração de textos compostos por reflexões já elaboradas por outros autores. A citalogia seria justificada, neste caso, como um momento de aprendizagem.

Se esta crença existe, precisamos extirpá-la o quanto antes. Primeiro, por que não devemos nem precisamos menosprezar a capacidade dos alunos iniciantes; eles sabem pensar e devem ser incentivados, em todas as oportunidades, a fazê-lo. Também não podemos ignorar o efeito potencialmente nocivo daquela aceitação: quando solicitamos ao aluno que elabore o que chamamos de um texto científico e aceitamos que ele apresente o que é apenas uma colagem de afirmações alheias, estamos contribuindo para que ele acredite que a citalogia é uma técnica aceitável ou, pior ainda, que o citalogismo é a opção correta para a produção científica.

Como crença, o citalogismo é absurdo, já que equivale a supor a possibilidade da existência de um pensador que não precisa pensar. Como prática, tampouco merece continuar a ser adotado, porque seus resultados normalmente são muito parecidos com o monstro criado, na literatura, pelo Dr. Frankenstein; afinal, a pretensão de gerar uma nova criatura apenas unindo fragmentos de outras só poderia resultar em algo desagradável de ser visto e de pouca ou nenhuma utilidade.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Tropeços na Redação Científica 4

Estilos (ou a falta deles)

Nietsche, Marx e Sartre em estilo carnavalesco - Fotomontagem by Eatomanik 2014
Um bom texto sobre o marxismo ou que tome esta teoria como base tem que ser redigido em um estilo o mais próximo possível daquele utilizado por Karl Marx. Do mesmo modo, estudiosos de Heidegger devem ser capazes de escrever como ele; sartreanos precisam imitar o estilo de Sarte e freudianos devem nos fazer imaginar que seu texto foi escrito pelo próprio pai da psicanálise.

Espero que você tenha discordado de tudo o que está no parágrafo anterior. A meu ver, aquilo tudo é absurdo. Estamos de acordo?

Então, por que lemos tantos textos que parecem levar a sério afirmativas como aquelas?

Tenho me deparado com uma quantidade bem razoável de textos, normalmente (mas não exclusivamente) redigidos por pessoas que estão iniciando suas carreiras como autores e que parecem partir do princípio de que um texto, para ser científico e valioso, tem que ser escrito no mesmo estilo adotado pelos que são reconhecidos como cientistas valiosos.

Os autores que citei e muitos outros, que são importantes e que nos auxiliam a pensar, viveram e produziram em outros momentos, em outros espaços sociais e registraram seus pensamentos adotando estilos de redação e de argumentação que eram os correntes em suas épocas, nos idiomas que utilizaram e em seus grupos de referência intelectual.

Muitos tradutores procuram respeitar estes estilos e realizam grandes e louváveis esforços para transpô-los, junto com o conteúdo dos textos, para outros idiomas.

Na grande maioria dos casos, porém, não há qualquer razão para que tentemos fazer o mesmo. Vivemos em outro momento, em outro país, em contextos sociais nos quais as preocupações, os hábitos, os processos de interação social, os meios e até mesmo os objetivos mais imediatos da comunicação mudaram bastante, quando comparados com os vividos por aqueles autores. Nossas conversações cotidianas, verbais ou escritas, são diferentes. Por que nossos textos científicos devem permanecer iguais?

Arrisco uma hipótese: nós, professores, sem perceber, estamos transmitindo aos alunos a ideia de que o estilo de redação é um elemento-chave na determinação do valor ou da cientificidade de um texto. Afinal, não somos nós, direta ou indiretamente, que ensinamos a eles que um texto, para ser aceito como científico, tem que ter Introdução, Objetivos, Procedimentos, Resultados e Conclusões, separadinhos, devidamente identificados por subtítulos e enquadrados em espaços delimitados (e, muitas vezes, com tamanhos fixos)? Se a ordem das informações é um determinante da qualidade, por que não também o estilo? Assim, vamos enquadrando o pensamento dos novos cientistas.

Algumas características como precisão, clareza e concisão são altamente desejáveis em um texto científico, mas nenhuma delas é, isoladamente, determinante do valor do mesmo. Este valor depende, fundamentalmente, da qualidade e da originalidade das informações que o texto traz e das afirmações e reflexões que apresenta e desperta.

Isto pode ser feito, facilmente, no português nosso de cada dia, sem que precisemos cair nas gírias e na vulgarização das expressões nem abrir mão da qualidade, da precisão da clareza.

Ou vamos continuar supondo, como já fizeram Heidegger (a sério) e Caetano Veloso (será?), que “só é possível filosofar em alemão”?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tropeços na Redação Científica 3

A ironia da ironia entre aspas


Existe, nos meios acadêmicos, um ritual mímico-verbal minuciosamente detalhado e repetido com frequência. Visualize a cena: uma aula, palestra ou apresentação de trabalho; alguém lá na frente, distribuindo seu saber; a plateia mais ou menos atenta... O apresentador
a) diz uma palavra ou conjunto delas (tais como democracia, eficiência ou boas intenções), prolongando a verbalização;
b) ao mesmo tempo, flete a articulação do cotovelo,
c) ergue as duas mãos até que elas fiquem adiante do rosto, dispostas lateralmente de forma mais ou menos paralela aos ombros e verticalmente numa altura próxima à da boca,
d) dobra os dedos mínimos e anulares das duas mãos e sobrepõe a eles os polegares respectivos,
e) estende e flete rapidamente uma ou duas vezes os dedos médio e indicador e
f) acompanha estes gestos com a expressão verbal entre aspas.
Os que assistem ao ritual entendem prontamente que o tal processo tido como democrático na verdade não o era, que as tais intenções não eram tão boas assim ou que a eficiência era qualquer coisa, menos eficiente.

Já presenciamos ou representamos esta cena tantas vezes que muitos praticam uma forma de transposição parcial daquele ritual para o que redigem. Não é raro encontrarmos textos nos quais nos deparamos com algumas palavras ou expressões breves escritas entre aspas, mas sem referências a uma fonte ou autor externo. Quando isto ocorre, podemos entender que o autor do texto indicou, através do uso das aspas, que estava utilizando as palavras delimitadas de forma relativizada e irônica.

Há quem afirme que esta prática fere as normas de redação científica segundo as quais as aspas devem servir como elementos de delimitação de trechos breves, transcritos de fontes externas. Para os defensores da obediência irrestrita às normas, esta seria uma razão suficiente para a eliminação daquele uso.

Contra esta posição, prefiro pensar que normalmente não temos dificuldade em distinguir aspas delimitadoras e irônicas pelo fato de que as primeiras são (ou devem ser) acompanhadas das referências às fontes originais. Por isto, não considero esta duplicidade de funções como um problema.

Também não defendo a posição de que um texto científico deve ser isento de afetos, de humores e de recursos de estilo literário. As expressões irônicas podem ser bem vindas.

Por outro lado, penso que não podemos abrir mão, nestes textos, da clareza na exposição das ideias e na definição dos conceitos. Frente a esta exigência, aquelas ironias podem ser prejudiciais.

Quando coloco uma palavra entre aspas desta maneira, sugiro que a tal palavra não é uma denominação adequada para aquele fenômeno ou processo. É como se dissesse que “A” não é exatamente igual a A. Isto pode até ser uma informação importante para o leitor, mas não esclarece o que é “A”.

Imaginar que “A”, além de não ser igual, é exatamente o contrário de A tampouco é satisfatório. Sugerir, através da ironia, que um processo político não é democrático só será esclarecedor se eu fornecer também informações claras sobre o que estou considerando como democracia e em que o tal processo diverge destas características.

Sem detalhamentos deste tipo, aquela pretensa ironia pode servir apenas como uma forma de transferir para o leitor algumas obrigações do autor, como a clareza e a precisão na definição dos conceitos. Ironia ou preguiça?

O irônico é que esta forma de ironia textual normalmente seja utilizada para denunciar um mau uso de um conceito, quando ela própria pode envolver outro uso inadequado do mesmo. 

Se afirmo que isto constitui um problema “sério”, você entenderá o que eu quis dizer com este sério

Sério?

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Tropeços na Redação Científica 2

As ligações perniciosas


Uma das exigências para a redação de um texto científico, tal como para a grande maioria dos textos, é a da continuidade: cada ideia, informação ou reflexão apresentada deve ser claramente relacionada às demais e disposta numa sequência que permita ao leitor acompanhar o raciocínio do autor. Isto obriga o autor a planejar seu texto de maneira que, dentro de uma mesma seção, cada parágrafo mantenha alguma relação de continuidade com o anterior e o seguinte.

Parece que esta exigência - básica, conhecida e aceita - tem representado uma dificuldade muito grande para os cientistas-autores: há um número imenso de textos que apresentam um verdadeiro festival de parágrafos iniciados com expressões como "deste modo", "desta forma", "desta maneira"... De vez em quando aparece um "sendo assim"... 

Isto não seria uma inadequação, não fosse o fato de que, na maioria das vezes, os parágrafos anteriores não fazem referência a qualquer elemento que possa ser identificado com um modo, uma forma, uma maneira, ou algo que permita ao leitor identificar a que se refere o tal do "assim".

É fácil perceber que os autores estão tentando estabelecer alguma forma de continuidade do texto, só que, nestes casos, o resultado acaba sendo inadequado e tornando a leitura desagradável já que aquelas expressões significam exatamente nada.

Quando encontrar uma daquelas expressões, faça dois exercícios. Um: releia o parágrafo anterior e procure detectar, nele, qualquer afirmação que possa sugerir ou ser interpretada como um modo, forma, ou maneira. Se não houver, a expressão é incorreta. Dois: experimente ler o parágrafo no qual a tal expressão aparece, mas como se ela não estivesse ali. Esta omissão prejudicou ou alterou a compreensão do conteúdo do parágrafo e a relação dele com o anterior? Não? Então, a expressão é inútil.

A continuidade entre os parágrafos deve existir, mas ser estabelecida pelas relações entre os conteúdos dos mesmos, não por estas ou outras gambiarras textuais.

Provavelmente, o que vem acontecendo é que, no decorrer do planejamento, o autor ou autores têm o cuidado de decidir sobre o conteúdo de cada parágrafo, mas não se preocupam em definir, também, por que cada parágrafo deve ser colocado naquela ordem, qual é a sequencia do raciocínio que pretendem apresentar ao longo do texto. É a definição clara desta sequência que orienta o estabelecimento de relações de cada parágrafo com os que o antecedem e sucedem.

A lista de ligações utilizadas erroneamente é bem maior que a expressões que apresentei até aqui. Um grupo destas ligações, bastante próximo ao das citadas e que pode passar por crivo semelhante, envolve expressões como "paralelamente" ou ao "mesmo tempo"...

Outro grupo é composto por expressões aparentemente mais sofisticadas e adequadas, como "convém destacar que", "é imprescindível frisar que", "é necessário dizer", que não são acompanhadas por qualquer explicação sobre porque é conveniente, necessário ou imprescindível dizer ou destacar aquilo. Frequentemente não é.

Além da continuidade, outra caraterística desejável nos textos científicos é a concisão: o texto científico não deve conter informações, afirmações ou digressões que não sejam necessárias para que os seus objetivos sejam atingidos. Isto implica em que tudo o que está no texto deve ser importante; caso não seja, deve ser excluído. Destacar algum conteúdo implica, necessariamente, em desmerecer o restante. Por estes dois motivos, se algo deve ou merece mesmo ser destacado, é necessário tornar claras as razões que justificam esta diferenciação. Na ausência destas justificativas, aquelas expressões acabam, normalmente, por ser apenas outras formas de remendos.

Diante deste quadro, antes de cair em tentação, lembre-se que o primeiro mandamento do redator científico é:
...não embromarás!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Estândares para publicação de textos acadêmicos


Tomanik, um dos mais ilustres colaboradores deste blog, comentou uma vez ("O Olhar no Espelho", cap 2) que, muitas vezes se confunde erroneamente metodologia com um conjunto de regras de apresentação. Infelizmente, essa parece ser a regra vigente no Brasil, na absoluta maioria das monografias universitárias, cuja análise pela banca costuma se deter apenas nos elementos formais. Os elementos formais, sem dúvida, são importantes (como já indicamos em alguns posts anteriores), mas somente se o conteúdo for bom. Seguir bem as normas da ABNT não dá nenhuma garantia da qualidade do trabalho.

O que muita gente sequer suspeita é que a ABNT tampouco é um padrão universal, mesmo sendo utilizada pelas boas revistas científicas brasileiras; boas, de acordo com os nossos critérios nacionais, diga-se de passagem. No mundo acadêmico internacional, a ABNT não existe como padrão de qualidade; ou seja, as revistas científicas tidas como internacionalmente boas, pelo resto do mundo, não usam a ABNT. Isso é algo que pode representar um dilema para alguns editores brasileiros, pois, se quiserem elaborar um material nacionalmente aceito devem, quase como que uma obrigação religiosa, usar a ABNT. Por outro lado, se buscarem aceitação com pares internacionais, em relação de igualdade acadêmica, esse padrão não serve. Um dos estândares mais utilizados no mundo científico é a APA, sigla que se refere à Associação Americana de Psicologia, cujas regras de apresentação formal de textos estão presentes por toda parte; exceto no Brasil.

A ABNT é uma norma paga, restrita a quem compra o direito de acessá-la. O jeitinho brasileiro sempre providenciou cópias pirata dela, desde o tempos das fotocópias borradas, porém todas essas cópias, de saída, já nasceram fora das regras dos direitos de reprodução. Com base nessa restrição, proliferam no Brasil textos que ensinam a usar a norma, muitas vezes com a indevida roupagem de manual de metodologia, reforçando a impressão equivocada aludida por Tomanik.

 A APA, pelo contrário, é vendida somente para quem quer adquirir o manual completo. O próprio site disponibiliza tutoriais bastante completos e cheio de exemplos, tornando o "estilo" (o nome correto é APA Style, sem a carga impositiva do termo "norma") bastante acessível e, mais importante ainda, com contorle sobre o material de formação de novos usuários. Não há nenhum impedimento para que outros autores produzam seu próprios manuais, os quais terão, sem dúvida, uma ressonância muito limitada já que o existe material on-line "oficial" gratuito. É provável também que quem efetivamente queira comprar um manual opte por adquirir o produto "oficial". Supõe-se que com o estreitamento de um mercado editorial dedicado ao uso do estândar, os autores estadunidenses não produzam tantos textos disfarçados de metodológicos sem o serem de fato. 

No Brasil, a encruzilhada torna-se mais complicada no momento atual, no qual muitas revistas, de olho na expansão para/com a América Latina, não apenas estão aceitando textos em castelhano, como, em alguns casos, tentando publicar volumes inteiros no idioma de Cervantes. A questão é como "obrigar" que o autor hispano-americano use a ABNT. Nos outros países latino-americanos, cada vez mais a APA vem sendo adotada como o padrão de publicação local, mesmo com o risco de se tornar dependente de definições externas. Alguns críticos poderão argumentar, com alguma razão, que a adoção de um estândar estrangeiro (a APA representa uma associação profissional de um país, não sendo um estândar internacional) poderia nos colocar em uma situação análoga a alguns países, que por não terem uma economia sólida, se renderam a adoção do dólar como moeda local, ampliando os problemas de dependência econômica dos EUA.

Não se trata de defender este ou aquele estândar, porém de ter conhecimento da existência de outros -- e a APA é apenas mais um entre vários outros -- e saber que as normas nacionais são absolutamente limitadas ao território (conforme indica o adjetivo "brasileiro", da sigla ABNT). Na ausência de um estândar a ser criado, pela ainda inexistente associação latino-americana dedicada ao tema, essa opção permite uma melhor circulação científica, em nível mundial, daquilo que produzimos deste lado do atlântico e permite que a produção bibliográfica de nossos países possa estar mais integrada. A questão não é de dominação, porém de integração e circulação do conhecimento científico.

Para quem quiser melhor conhecer o recurso, a página da APA Style (aqui) é uma boa opção; lá é possível aceder a um tutorial gratuito (aqui) ou a um blog dedicado ao tema (aqui). Quem tiver dificuldades com o inglês pode se valer das boas opções existentes em castelhano. A comunidade RedDOLAC, dedicada à integração de experiencias e tecnologias didáticas, sediada no Peru, divulgou recentemente (ver aqui) apostila feita no Equador sobre como aplicar a APA em publicações acadêmicas (baixar do blog "Yo Profesor" aqui). As editoras científicas colombianas certificadas pelo governo de lá utilizam a APA. Um extrato de um curso feito na Colombia sobre a APA, publicado no México, está disponível em um site da Universidad Nacional Experimental del Táchira, Venezuela (aqui). Insistir em um modelo "normativo" nacional pode parecer teimosia, ou, até mesmo, piada:

Copiado de "Boa Dica"





sábado, 5 de abril de 2014

Tropeços na Redação Científica 1

Quando a questão não existe ou ninguém sabe qual é

M. C. Escher; Queda D´água, copiado de Gödel, Escher, Bach
O uso de gírias e de expressões peculiares é típico dos grupos sociais. Além de servirem como recursos para a comunicação, estas formas particulares de expressão servem também como elementos de identificação dos participantes do grupo. No mundo acadêmico isto também ocorre e quem já viveu algum tempo neste ambiente com certeza se lembrará de muitos exemplos de gírias compartilhadas até a exaustão pelos cientistas.

Aqui no Brasil já tivemos um período no qual, após a publicação de um texto do Maurício Tragtemberg sobre o tema, nenhum participante da academia se atrevia a construir uma frase qualquer sem abordar as relações entre o saber e o poder. Tivemos, também, as fases do ponto fulcral e do a nível de... (que virou até música).

Parece que a gíria da vez é a questão da...

Preste atenção e você verá que parecemos não ser mais capazes de discutir a política, a adolescência, a comunicação, o desejo... Estamos sempre falando, escrevendo e discutindo a questão de cada um daqueles temas.

Esta poderia ser apenas mais uma mania, um cacoete dos cientistas que, tal como as músicas temas das novelas da Globo, de tão repetidas, tornam-se maçantes, mas me parece que ela serve também para transmitir uma série de falsas impressões.

A primeira delas pode ser a impressão de falsa competência. Quando alguém cita, de passagem, algo como a questão da formação política, está agindo como se soubesse, com precisão e clareza, o que é a tal questão, quais os limites, os determinantes e as consequências da mesma. Será que sabe?

Além disso, se não detalhar aqueles elementos, nosso brilhante autor ou locutor estará transferindo para seus ouvintes a responsabilidade pelo conhecimento de todos eles. Assim, cria novas falsas impressões. Uma: a de que todo mundo sabe ou deveria saber qual é e em que consiste a tal questão. Outra, bem pior: a de que ela existe e é ou pode ser conhecida.

Será que a complexidade que normalmente envolve acontecimentos ou processos importantes pode ser reduzida e expressa em uma questão?

Qual é, por exemplo, a questão da Educação no País? Quais são as do Ensino Superior, da participação política, da economia de base, dos direitos humanos?

Para piorar: normalmente, a expressão a questão da ou do significa exatamente nada. Faça um exercício. Tome a frase: “A questão da Abolição, no Brasil, não pode ser compreendida plenamente se não levarmos em conta a questão da produção agrícola nacional, a questão dos interesses mercantis ingleses e especialmente a questão do frágil equilíbrio político da Monarquia”. Agora experimente retirar da frase as expressões a questão da ou do e substituí-las pelos artigos a ou o equivalentes. Aquelas expressões fizeram alguma falta?

Na maioria das vezes o uso daquelas expressões é inútil. Elas representam apenas uma mania chata e, eventualmente, a manifestação de alguma petulância.

Para que precisamos delas, então?

Como nos livrarmos deste vício? Eis uma boa questão.

De qualquer forma, acho que está na hora de prestarmos mais atenção nas questões envolvidas nesta questão da questão, porque ela está se tornando excessivamente repetitiva.

terça-feira, 18 de março de 2014

Um puxadinho no Blog: motivos e intenções

  • Um: tenho acompanhado com alguma periodicidade as discussões promovidas pelo André aqui no blog. Elas têm me divertido e ensinado muito.
  • Dois: trabalhei com o André em Maringá e em Brasília e gosto do modo como ele demonstra, na prática, algo em que acredito: é possível trabalhar séria e criticamente sem ser mal humorado ou chato.
  • Três: tenho, atualmente, mais tempo disponível que a maioria dos meus colegas, já que vivo a situação paradoxal de aposentado ma non troppo. É claro que, como aposentado, passei a receber e a assumir uma série de funções domésticas das quais a condição de trabalhador-com-horário-e-compromissos me isentava, mas isto é outra história. De qualquer forma, tenho algum tempo para dedicar às coisas que me dão prazer.
  • Quatro: velhos gostam de conversar e passam o tempo procurando vítimas para suas falas.
Resultado: resolvi finalmente aceitar um convite do André e me tornar colaborador periódico deste fórum de discussões. Dito de outra forma: ele cedeu o espaço, eu resolvi construir um puxadinho aqui no blog e me instalar nele, ao menos por uns tempos.
Como iniciante nas artes e manhas do espaço virtual, resolvi começar abordando temas pequenos, quase marginais, que normalmente não têm espaço nas publicações e apresentações oficiais, mas que estão por aí, permeando nosso dia a dia acadêmico. Coisas como um cisco no olho ou uma pedrinha no sapato, que não teriam qualquer importância nem seriam percebidas, se não estivessem onde não deveriam estar e se não causassem incômodo, por isto.

Pretendo começar tratando de alguns maus hábitos (segundo minha avaliação) que vejo ser cometidos por muitos dos que se dedicam a escrever textos científicos e que, de tanto serem repetidos, deixam de ser percebidos e passam, mesmo, a ser considerados como parte dos padrões de redação acadêmica.

Se todo mundo faz, está certo? Frequência é igual à qualidade? Penso que não.

Espero que os textos que pretendo postar sejam úteis. Se não, que sejam divertidos. Se nada disso, que sejam ao menos perdoáveis. E perdoados.


domingo, 9 de março de 2014

Eduardo Tomanik é o novo colaborador do blog MCI

Copiado do Blog "Pesquisa-Ação", que cujas discussões devem muito ao Tomanik
Eduardo Agusto Tomanik, se auto descreveu em seu lattes assim: Licenciado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Mestre em Psicologia Comunitária pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi professor associado da Universidade Estadual de Maringá, atuando no Curso de Graduação em Psicologia e nos Programas de Pós-Graduação em Administração, Enfermagem e Psicologia (Mestrados) e Ecologia (Mestrado e Doutorado). Tem experiência nas áreas de Metodologia Científica e de Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: Representações Sociais, ambiente e processos sociais. Aposentou-se em outubro de 2011. Atualmente é Professor Voluntário do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, desenvolvendo estudos e orientando trabalhos na área da Psicologia Social das Emoções

1ª ed 1994
O resumo não faz jus a sua particular combinação de qualidades, que é capaz de unir o profissionalismo e a seriedade acadêmica, com perspicácia e inteligencia ímpar, além de ótimo senso de humor e simplicidade. Sua influencia está mais do que presente no blog MCI, desde o início. Uma simples busca pelo argumento "Tomanik" na caixa de pesquisa remeterá para ao menos 30 posts (cerca de 16% dos atuais 194 publicados). Muitos são referencias de aula, com indicações e atividades relacionadas ao seu livro "O olhar no espelho", que foi o texto-base das 13 turmas de "Metodologia" que ministrei desde de 2007 (em vários níveis de pós-graduação, no Brasil e no exterior). Outros são atividades de simulação à elaboração de projetos que idealizamos juntos, com a fictícia APQP (está indexada nas tags como "Grupo/Instituição"). Alguns são menções às suas ideias e/ou à sua pessoa em algumas reflexões que fiz. As mais interessantes, no entanto, são as referencias embutidas em reflexões de alunos que colaboraram com este blog, por tornar patente o processo crítico na formação de novos pesquisadores, dando especial destaque às ideias de nosso mais novo ilustre colaborador. Outra boa forma de verificar a influencia positiva de Tomanik na formação de jovens pós-graduandos em CI é perpassar pelos blogs discentes, derivados do blog MCI.
2ª ed, 2004 e
2ª tiragem, 2009

Conheci Tomanik em 2002, quando tive a feliz oportunidade de coordenar a Editora da Universidade Estadual de Maringá (Eduem), onde trabalhei diretamente com ele no conselho editorial. Acabei, por acaso, como "revisor geral" de seu livro, quando fizemos a segunda edição, em 2004, e foi quando começamos a conversar mais sobre a pesquisa científica e seus métodos. De lá para cá, a troca de ideias nunca cessou, seja presencialmente (quando nossas viagens e agendas coincidem), seja virtualmente (e-mails, chats, postagens e comentários em blogs). Nas idas e vindas da vida acabamos nos reaproximando mais quando decidi mudar um pouco o rumo deste espaço virtual, após acontecimentos descritos aqui, aqui & aqui.

Sua contribuição será em uma regularidade mensal não-estrita, em um primeiro momento, focada em temas relacionados às falhas e tropeços de redação. Bem humorado e sagaz como é, sugeriu que fizéssemos um "puxadinho" para ele aqui no blog MCI com uma imagem para lá de modesta (ver aqui). No seu primeiro post, programado para a semana que vem, o puxadinho terá muito mais classe; aguardem.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Qual a diferença entre co-autor e orientador?

A questão da co-autoria em trabalhos científicos muitas vezes reflete situações hierárquicas de aspectos éticos bastante discutíveis, como é o caso, nas ciências exatas de haver a necessidade de incluir pesquisadores responsáveis por facilitar o uso de determinados equipamentos de laboratório no rol dos autores do paper resultante de tais experiencias. Tal prática, obviamente, nunca é assumida explicitamente, porém é bastante usual. Já conheci pesquisadores que ao início do ano, à época de lattesjar (ver post aqui sobre a conjugação do verbo), não tinham ideia de quantos artigos haviam publicado no ano, pois ainda não haviam recebido informações sobre o que seus colaboradores de laboratório haviam publicado. 

Em outros contextos, como forma de "impulsionar" a produção científica institucional de programas de pós-graduação (leia-se geração de indicadores), obriga-se a que os alunos publiquem em co-autoria com seus orientadores, como, é o exemplo do PPCINF/UnB (baixar regulamento aqui). A questão é delicada, pois, de algum modo, o orientador é realmente co-responsável pela pesquisa de seus discípulos, porém, por outro lado, a coisa poderia se configurar como exploração do trabalho intelectual. Obviamente o bom senso e o equilíbrio ético, que deveriam funcionar como balizadores e impedir abusos e distorções, nem sempre são eficazes. Há na história acadêmica uma infinidade de casos que servem de alerta para que analisemos a questão com mais cuidado. 

Em um debate iniciado na web, há mais de quatro anos, a Faculdade de Engenharia da UERJ relata decisão judicial, em favor de aluna de pós-graduação, na qual o professor orientador, juntamente com a instituição, foram condenados por usurpação de autoria de trabalho científico (ver nota aqui). Um dos argumentos da sentença foi embasado no artigo 15º da Lei do Direito Autoral (9.610/98) que, em seu inciso primeiro diz que "Não se considera co-autor quem simplesmente auxiliou o autor na produção da obra literária, artística ou científica, revendo-a, atualizando-a, bem como fiscalizando ou dirigindo sua edição ou apresentação por qualquer meio". Esse aspecto legal é bastante relevante, pois descreve grande parte das atribuições de um orientador com seu pós-graduando. Não é o caso de afirmar que a relação orientador-aluno se resuma a isso e nem que tal atitude deva ser desejável, mas o fato é que me parece necessário repensar quais são os limites dos méritos a serem atribuídos à atividade docente (no sentido lato, de ajudar a formar e construir conhecimento).

O outro lado delicado da relação orientação co-autoria reside na "transferência" de responsabilidade do discente a seu mestre, fazendo com que, pela simples indicação de autoria coletiva, acessos a revistas e congressos possam ser abertos. No caso da Ciência da Informação no Brasil, há algum tempo que os encontros nacionais da área não aceitam sequer avaliar propostas de pos-graduandos que não venham compartilhadas por seus orientadores.

Em janeiro de 2013, no congresso Ciencias, Tecnologías y Culturas. Diálogo entre las disciplinas del conocimiento. Mirando al futuro de América Latina y el Caribe, promovido pelo movimento intelectual Internacional del Conocimiento (ver página aqui) passei pela desagradável situação de haver 8 certificados em meu nome, quando o regulamento do evento não permitia apresentar mais do que dois trabalhos, por conta de alunos que reproduziram, quase que automaticamente, o hábito nacional de sempre colocar o nome do orientador em todas os seus produtos acadêmicos. Felizmente havia outros colegas brasileiros em situação semelhante, o que provocou uma reunião da comissão organizadora, que revisou as limitações. Eticamente apenas trouxe na bagagem os trabalhos nos quais a co-autoria representou um efetivo trabalho de equipe, e não uma assessoria docente ao trabalho de meu aluno (algo que é inerente de minha condição de orientador), deixando no Chile 4 certificados preenchidos com o meu nome.

A questão é, sem dúvida, delicada e toca em práticas consolidadas de algumas áreas, além de retomar o eterno debate sobre os limites da compreensão da esfera da Justiça Pública em relação ao universo científico. Porém é necessário que, seja como autores ou seja como co-autores, passemos a repensar nossa relação com a produção do conhecimento científico, sempre lembrando que pelos argumentos embasados na tradição ("sempre foi assim", "é uma prática já consolidada" etc.) as mulheres não poderiam votar e a escravidão ainda seria legal. 

A imagem escolhida para ilustrar o post busca representar um momento de comunhão de equipe, o que deveria ser a regra na elaboração de trabalhos em co-autoria...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A solução para a normalização de textos


 A redação científica, além de ter que seguir parâmetros de precisão, clareza e outras boas qualidades textuais, sempre é padronizada por normas estabelecidas pelos veículos (ou tipos de veículos) nos quais se difundirá o trabalho. Muitas revistas têm normas específicas enquanto que outras trabalham com definições mais genéricas. No Brasil, salvo exceções, o que vale são as normas da ABNT. O problema é que há muitas normas da ABNT que incidem sobre a redação científica, e que, frequentemente, são atualizadas. O resultado final é que a formatação final de um texto é sempre problemática para a maioria dos mortais. 

A melhor solução seria a existência de um software para edição de textos que viesse com os parâmetros da ABNT incorporados e que já fizesse os ajustes automaticamente. Seria, não. É! Acabei de receber um e-mail de Lauro César Araujo, pesquisador do CPAI/UnB, o maior fã que eu conheço do processador de textos LaTex, com o seguinte teor:
abnTeX2 está disponível na sua distribuição LaTeX! A partir de agora você pode escrever teses, dissertações e outros trabalhos acadêmicos em conformidade com as normas ABNT em LaTeX com abnTeX2. Se você utiliza uma distribuição TeX Live (TeXLive para Linux ou Windows ou MiKTeX para Mac), tudo o que você precisa já está disponível no seu computador.
Se não tiver ideia do que estou falando, consulte o site do projeto em http://code.google.com/p/abntex2/ e veja um modelo de trabalho produzido abnTeX2! 

Vale à pena conferir!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Artigo de divulgação científica


Um artigo de divulgação científica tem a complexa tarefa de conseguir escrever com precisão e clareza para um público semi-especializado. O desafio é grande, pois o formalismo da redação acadêmica, muitas vezes, torna a compreensão impeditiva para o leitor inciante. Por outro lado, os veículos de divulgação científica demandam estruturas mais ou menos rígidas para a apresentação dos textos, nem sempre adequadas ao que se quer divulgar e nem sempre compatíveis com o objetivo de vulgarização científica. Mesmo assim, a normalização e o estabelecimento de formatos estanques pelas boas revistas acaba funcionando como uma garantia de qualidade ao pré-definir os elementos mínimos e a estrutura do artigo. Isso é benéfico, pois define uma espécie de padrão da redação científica que além de educar o público leigo para a leitura acadêmica, ainda ajuda na formação de novos cientistas, que se vêm obrigados a aprender a apresentar suas ideias de acordo com um modelo amplamente aceito por seus pares comunitários. A divulgação e vulgarização da ciência, feita com critérios e solidez, é fundamental para a realimentação humana do ciclo de produção do conhecimento acadêmico. Colunas em jornais, blogs científicos, periódicos de difusão são apenas alguns exemplos de veículos que operam nessa atividade.

A estudante de mestrado em Ciência da Informação da Universidad de Antioquia, María Muriel Ríos Leirum Airam descobriu um excelente portal destinado a auxiliar nas diferentes atividades relacionadas à escrita acadêmica: o Centro de Recursos para la Escritura Académica, do Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterey, México (aceda ao CREA aqui). Uma das páginas destacadas por Maria Muriel é a que indica as diretrizes básicas para a criação de um artigo de divulgação científica. O texto é bastante interessante e se inicia com uma epígrafe de um diretor da NASA dizendo que é necessário falar com as pessoas em linguagem compreensível. Vale à pena conhecer.

Para aceder à página sobre construção de artigos de divulgação do CREA, clique aqui.

Para conhecer o blog de Maria Muriel, sobre Ciência da Informação, clique aqui (vale à pena, pela qualidade de suas reflexões).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quais são as partes de uma tese?

Copiado de Portal Virtual de Barcelona
Os iniciantes em pesquisa científica sempre tendem a achar que a formatação do trabalho é mais importante que seu conteúdo. Pululam na Internet modelos, templates, apresentações etc. sobre como apresentar e estruturar um trabalho acadêmico. A padronização, sem dúvida, é para lá de benéfica, porém ela não pode ser sobreposta ao mérito do trabalho acadêmico, que é, em última análise, o que garante a qualidade. Mas para que o mérito possa ser julgado é necessário que a pesquisa se, de algum modo, apresentada. A referência básica (notem bem, "referência", não camisa-de-força) é a norma ABNT NBR 14724 (disponível aqui em um domínio USP).

Em paralelo ao esquema bovino acima a referida norma apresenta os seguintes "cortes", que, juntos, compõem a totalidade do trabalho acadêmico. 
:
É importante destacar que, como o próprio cabeçalho diz, isso é um esquema. Um trabalho acadêmico não é como um mecanismo para qual basta juntar e montar corretamente uma série de componentes (parts, em inglês). A ideia da totalidade, do conjunto, do trabalho não pode se perder em função da adaptação a este ou aquele esquema, que prevê a divisão do trabalho em partes e sub-partes. Tais esquemas servem mais para representar a realidade do que para moldá-la. Tais partes são, então, representação de um ideal de trabalho. Recordo-me de uma palestra na qual Eduardo Tomanik provocou a audiência perguntando quais eram as partes que dividiam o Homem. Enquanto a platéia se dividia em palpites do tipo "cabeça, tronco e membros" e "corpo, mente e alma" ele interrompeu o zum-zum-zum dizendo que ele preferia permanecer íntegro, sem ser dividido em nenhuma parte...

A norma NBR 14724 propõe-se como modelo a ser seguido, como uma referência. Porém, do mesmo modo que existem outras possibilidades de cortes bovinos (ver, por exemplo, a deliciosa parrilla argentina) algumas variações podem ser encontradas. Na maioria das vezes representam apenas desconhecimento (ou descaso) com a ABNT, o que é grave; porém, outras vezes, constituem-se como opções deliberadas. Muitas revistas acadêmicas optam por criar normas próprias, derivadas da ABNT em maior ou menor escala. Outros periódicos científicos, por estarem interconectados em uma rede internacional, passam a seguir outros padrões, que podem ter âmbitos distintos, ligados, ou não a alguma normatização de cunho nacional. É muito comum que alguns periódicos hispânicos das Ciências Sociais Aplicadas pautem-se, por exemplo, nas nornas da APA (American Psychological Association). Muitas vezes a adoção ou modificação de normas relaciona-se com a utilização de softwares específicos que permitem de modo mais automático a inclusão de referências e a indexação do documento. 

A minha tese de doutoramento (USP, 2010 - baixe aqui) além de apresentar uma capa com imagem colorida, deliberadamente não trouxe capítulo de conclusão: 
Acreditamos ser desnecessária uma síntese final das idéias desenvolvidas ao longo do texto; deste modo, para evitar uma argumentação tautológica, optamos não apresentar um capítulo final, caracterizado como conclusão. (LOPEZ, 2010, p.6)
Recentemente vi na comunidade "Storytelling & Transmedia" do Facebook uma impressionante e divertida brincadeira com uma nota de rodapé em um capítulo introdutório:
Copiado de Trabalho Sujo
O mais importante não é criar as próprias normas ou, iconoclasticamente, desprezá-las. É fundamental bem conhecê-las e bem aplicá-las para, se necessário for, adaptá-las ou, mesmo, transformá-las. Do contrário, o pesquisador iniciante corre o risco de brincar de "aprendiz de feiticeiro" e colocar tudo a perder.

Além da mencionada NBR 14724, é importante conhecer as demais que norteiam a produção acadêmica. Veja post sobre esse assunto aqui.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A importância da linguagem em pesquisas científicas

Copiado de Help with Technical and Scientific Writing
Por Janaína Bezerra
(mestranda do PPGCINF-UnB

No decorrer da disciplina, quando utilizamos como base o texto de Tomanik (2004) foram realmente novas “conversas” sobre as pesquisas sociais, porém não é o meu objetivo aqui falar de todas essas novas descobertas e conversas, mas tão somente salientar a importância da linguagem em pesquisas sociais. A escolha dessa temática não se deve ao fato  desta ser mais ou menos importante que os demais temas estudados, pois acredito que o cientista ao elaborar uma pesquisa científica dever estar atento a todos os requisitos que envolvem a elaboração de uma pesquisa científica.
Um dos motivos pelos os quais escolhi essa temática se deve ao fato de que achei muito interessante a importância e o cuidado que devemos ter ao elaborar uma pesquisa científica para que se torne compreensível, claro e objetivo o que estamos falando, afinal de contas temos que ter em mente que a pesquisa não ficará restrita a nossa gaveta ou biblioteca particular, mas que ela será vista, criticada e discutida por nossos pares (comunidade científica) e demais interessados e, portanto,por isso ela deverá ser clara, compreensível e objetiva, não é mesmo? Mas como fazer isso?
Não pretendo aqui ser uma manual de primeiros socorros, mesmo porque estou longe de ser o médico, talvez, no máximo ,o indivíduo que a partir de algumas observações liga para o serviço de emergência. Então, vamos lá!
Uma das primeiras observações a partir do texto de Tomanik (2004) que me chamou a atenção foi “Nossa vida em sociedade depende fundamentalmente de nossa capacidade de produzir e enviar, receber e compreender mensagens das mais diversas naturezas” (TOMANIK, 2004, p. 116). Desde que nascemos estamos diariamente em um contínuo processo de compreender e ser compreendido, exercendo e nos aperfeiçoando na capacidade, se não arte, de comunicação de informações e mensagens e, com a pesquisa científica, não seria diferente, mas seria da mesma forma o processo de linguagem? Não, claro, isso pode parecer óbvio, não é mesmo? Mas como deve ser essa linguagem? Aí está o “pulo do gato” e Tomanik (2004) nos brinda com reflexões interessantíssimas o autor afirma que esta linguagem dever ser resultado de uma reflexão mais aprofundada sobre os termos que estamos utilizando e respeito da construção da frase e, ainda,  nos informa que esta dever ser “mais estável, mais fria e “disciplinada”, para garantir a qualidade de sua comunicação, normalmente baseada em informações mais claras e precisas do que as da comunicações cotidiana” (TOMANIK, 2004, p.116) ou seja, devemos evitar expressões e termos mais coloquiais, gírias e sermos mais objetivos, claros e organizados naquilo que pretendemos informar. 
Outro ponto a ser discutido, e, que, facilita a clareza e a objetividade da linguagem científica, é  sintetizar os conceitos, ou seja, devemos nos utilizar de conceitos que não tenham muitos significados ou que dêem margem  a muitas e diferentes interpretações. Clareza, objetividade e precisão, lembram?
Até aí tudo bem? Ótimo, porque tem mais pontos que precisam ser discutidos e, agora, vamos voltar nossa atenção para outro ponto interessante a ser discutido que são os juízos de valor muitas vezes empregados em textos científicos. Mas o que são conceitos, juízos e juízos de valor? Ora, se tentarmos definir o que é uma universidade, provavelmente, diremos que é um ambiente pluridisciplinar para a formação de profissionais de nível superior, etc. agora quando definimos o que é uma boa universidade já estamos emitindo um juízo, ou seja, “o juízo, portanto, é uma relação entre conceitos” (RUDIO, 1981 apud TOMANIK, 2004, p. 120) e ainda, segundo Tomanik (2004, p. 120)” o juízo é uma relação entre conceitos que exprime muito mais uma convicção de quem o emite, do que uma efetiva característica do fenômeno a que se refere” . Então, qual a importância saber o que é conceito e o que é juízo para a ciência? Ora, porque segundo o autor do texto estudado é:

“A tarefa da ciência, portanto, é muito mais de tentar tornar claro, sempre que possível o que é conceito e o que é, ou pode ser juízo, do que se propor a eliminar total e definitivamente, os juízos do seu discurso”. ( TOMANIK, 2004, p. 121)

Duas reflexões são importantes no momento de elaboração do texto científico: Para quem se escreve e para que se escreve? A partir das repostas a esses questionamentos fica mais fácil a identificação de nosso leitor, assim como a escolha dos termos e conceitos que serão utilizados, a estrutura (discurso) enfim a linguagem que será utilizada para que o texto fique claro, compreensível, objetivo e não se torne monótono ou confuso para a leitura.
Seguem algumas reflexões extraídas da leitura do texto de Tomanik (2004, p. 127-132) que deverão ser observadas no momento de elaboração do texto científico.

  • “Jamais escreva para você mesmo”
  • “A avaliação do texto deve ser feita por membros do grupo a qual ele se destina (...) o autor não é um bom crítico de sua obra”
  • “Tenho que ter certeza que conheço os termos que emprego, que as palavras que utilizo não são apenas enfeites, aparência de conhecimento”
  • “Tenho que ter um cuidado todo especial com a clareza das frases que elaboro, além de não utilizar conceitos que não domino, especialmente, entre aqueles próprios de minha área”
  • “(...) a mudança de uma palavra na definição de um conceito pode alterar substancialmente seu significado”
  • “ A preocupação com a clareza, porém, pode evitar a elaboração de textos pretensiosos e fúteis, em que a pobreza de conteúdo procura se ocultar sob a forma de um discurso rebuscado e hermético” 

             Escrever um texto científico é uma tarefa nada fácil, a melhor maneira de fazer é exercitando e pondo em prática. E então, vamos por em prática?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Citar e referenciar para não cometer plágio

Copiado de Cartoon Stock
O cartoon acima, amplamente reproduzido pela Internet, bem ilustra um problema comum: o Ctrl+C Ctrl+V; o popular recorta e cola. A prática apresenta dois problemas principais: um de direitos autorais, outro de direitos comerciais, ou de divulgação. Quem infringir o primeiro estará, certamente, infringindo o segundo, porém a recíproca não é verdadeira. Por exemplo, mesmo sem ter os direitos de divulgação da imagem acima, como são feitas todas as referências autorais, não se pode acusar este blog de violar os direitos de autor e, portanto, de cometer plágio. Em defesa do segundo ponto, pode-se alegar, que apenas está reproduzida uma imagem de divulgação (uma amostra disponibilizada pelo site) de baixa resolução, para usos não comerciais.

O ponto principal, afeto a este blog, é o cuidado que a redação científica deve ter com relação ao uso das idéias e formatos de exposição das mesmas feitas por outrem. A frase "To be or not to be, that is the question" foi formulada por Shakespeare. A reprodução de tal frase, mesmo que traduzida, sem referência ao seu autor, pode ser encarada como plágio, porque reproduz, sem indicar a autoria (portanto atribuindo-a implicitamente ao seu plagiador) a idéia e formato de exposição da mesma. Caso a frase fosse apresentada assim "A principal questão reside no dilema ser/não-ser" não haveria plágio de forma, porém a idéia continuaria a ser apropriada indevidamente por alguém que não foi o responsável por sua elaboração.

Copiado de Klat Talk
No Brasil, infelizmente, dado o sistemático condicionamento ao qual os jovens são submetidos na elaboração das mal-fadadas "pesquisas escolares", os estudantes universitários inciantes, em boa fé e inocência, tendem a achar que copiar é pesquisar e que copiar bastante é fazer trabalhos universitários pré-científicos. O recurso dos textos eletrônicos e do copy & paste, neste aspecto, só piora a situação. Muitas vezes é muito difícil definir o que é plágio e o que não é, em função de definições legais, muitas vezes relacionadas à obtenção de vantagens pecuniárias e à má-fé na realização da cópia. Muitos são os colegas docentes que se vêem em saias-justas quando se deparam com trabalhos copiados da Internet, de colegas docentes ou até mesmo de colegas discentes. A primeira atitude educativa geralmente é explicar e ensinar para aquele aluno que isso não se faz, que além das implicações éticas existem problemas legais mais sérios etc. etc. etc. Em outras situações, mesmo quando não mais é possível presumir a boa-fé do plagiador, a cultura acadêmica nacional dificulta a aplicação de sanções disciplinares (também educativas) mais severas. No final da escala há os plágiadores profissionais (não os semi-profissionais, que vendem trabalhos pela Internet) que se aproveitam de dados e informações alheias para alavancar carreiras intelectuais, conseguir patrocínios, verbas de pesquisa, patentes etc., como foi o exemplo da USP que veio à tona (um em um milhão) recentemente (ver post do CB aqui).
Na tentativa de começar a coibir a prática antes que ela possa atingir degraus mais elevados, o Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da UnB, em sua recente reformulação do regulamento (disponível aqui), tornou explícito que a realização de cópias de textos indevidamente referenciadas é passíveis de desligamento: "Artigo 20. Entende-se como uma infração disciplinar, passível de desligamento do programa, (...) o ato do aluno, comprovadamente, apresentar textos em cumprimento de exigências do programa e/ou disciplinas que contenham cópias de textos de  outrem sem o devido estabelecimento de autoria, feitas deliberadamente  com o intuito de apropriar-se do trabalho intelectual de outra pessoa.". Em outras realidades esse tipo de regulamentação é padrão, porém no Brasil não é usual.
Existem diferentes tipos de plágio, porém o pesquisador iniciante deve tomar sempre muito cuidado em referenciar suas fontes (preferencialmente citando-as em conformidade com as normas da ABNT - ver post sobre isso aqui). O artigo de Loveleena Rajeev, que além de trazer a ótima imagem da esquerda, publicado no portal Buzzle.com traz uma listagem resumida da diversidade de possibilidades (acesse o artigo aqui). Há ainda muito material disponível na Internet que pode orientar sobre o assunto, como por exemplo o site Plagiarism dot Org, que é bastante explicativo e didático. Outra referência interessante, e bem divertida, é um vídeo feito na Universidade de Bergen, na Noruega, que pode somar no processo educativo dos novos pesquisadores, quanto à referenciação correta da autoria de frases e idéias:

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cuidados com a revisão


Em post anterior (acesse aqui) foram anotados alguns problemas que a ausência de cuidado com a pontuação podem ocasionar no sentido das frases. A redação científica, como todos sabem, deve ser pautada pela precisão e pela clareza. Muitas vezes o iniciando em pesquisa acha que escrever "bem" é escrever "bonito", de modo empolado e confuso: ledo engano. Outra vezes o jovem pesquisador, ciente da próprias deficiências, contrata um serviço especializado: excelente decisão. O grande problema é conseguir separar o joio do trigo em um cenário repleto de picaretas. A situação é assaz grave em função do jovem autor não ter muito parâmetro do que é ou não um bom texto, já que ele, por natureza, tende a ser inseguro quanto a isso.

Recebi, à pouco, um e-mail de uma suposta revisora. O texto de apresentação profissional, como diriam os mineiros, é "ruim demais da conta gente". Para evitar um possível processo por expor a verdade nua e crua omiti os dados que pudessem levar à identificação da "profissional". Eis o texto recebido:

clique na imagem para ampliar

Quase joguei fora, depois ensaiei uma resposta e, por fim, resolvi externar minha "revisão" na mensagem abaixo:
clique na imagem para ampliar

Não sou nenhuma Dad Squarisi e este blog deve estar cheio de falhas de revisão. A diferença é que aqui, dada a própria dinamicidade da ferramenta, os textos são postados sem revisão. O erros, quando identificados, são imediatamente corrigidos. Os artigos que submeto a periódicos e congressos, por outro lado, sempre passam por uma revisão, que não é a da Fulana de Tal e, dependendo da importância do veículo, custa bem mais que os absurdos R$ 5,00 por folha anunciados (uma monografia meia-boca de 50 páginas vai "demandar" R$ 250,00 para um serviço com a qualidade "De Tal"?). 

Quando fui coordenador de editora universitária sempre me vali de bons revisores. Alguns bem indicados por  outros professores e outros que tomavam a liberdade, como a Sra. De Tal, de se apresentarem por e-mail. A diferença é que todos eles tinham um "cartão de visita" eletrônico impecável. Ja tive também alunos de jogaram dinheiro fora com revisores picaretas e que me apresentaram trabalhos inaceitáveis. Nesses casos, para infelicidade de meus alunos, fui irredutível em exigir que outra revisão fosse realizada. Ou seja, o barato, quando o assunto é revisão, sai caro e, geralmente, mal-feito.

Moral da história: cheque bem a qualidade do serviço de seu revisor, a começar pelo texto de apresentação. 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Algumas referências para elaboração de monografia

(coordenadora do curso de arquivologia da UnB)

Para compor o corpo da monografia, pode-se usar a estrutura do próprio projeto de pesquisa como uma referência inicial. Os elementos abaixo são apenas um exemplo, que pode ser adaptado segundo as necessidades do trabalho e as exigências e recomendações do curso ou do(a) orientador(a): 
  • INTRODUÇÃO: onde são apresentados, de maneira breve, a delimitação do tema, o(s) problema(s) de que trata o trabalho e o objetivo (geral) que se deseja atingir; pode trazer, ainda, uma indicação bem resumida (no máximo um parágrafo) do conteúdo que será encontrado nos outros capítulos do trabalho 
  • OBJETIVOS: exposição direta do objetivo geral e dos objetivos específicos 
  • JUSTIFICATIVA: onde é feita a argumentação acerca da importância do tema em geral e do aspecto específico escolhido para a pesquisa; aqui podem ser melhor explicados, se necessário, a delimitação do tema e o(s) problema(s) abordados 
  • REVISÃO DE LITERATURA: onde deve-se indicar o estágio atual das discussões sobre o tema e o problema na bibliografia disponível na área 
  • METODOLOGIA: onde são apresentados as análises do autor acerca do referencial teórico e a metodologia escolhida; as técnicas de coleta de dados, os instrumentos de análise, os materiais e equipamentos utilizados (se for o caso) etc. 
  • RESULTADOS: onde são apresentados os resultados da pesquisa, como os dados coletados, produtos realizados (por exemplo, criação de ferramentas ou instrumentos, manuais etc.) 
  • DISCUSSÃO: onde são comentados os resultados da pesquisa (pode ser incluída na conclusão) 
  • CONCLUSÃO(ÕES): onde são indicadas, de modo sintético, as descobertas do autor a partir dos dados apresentados anteriormente. 
Normas úteis para a elaboração da monografia (como são normas pagas, sem domínio público, elas não podem ser aqui disponibilizadas, mas com um pouco de paciência e Google consegue-se encontrá-las em vários locais virtuais).
  • ABNT NBR 14724:2005 - Informação e documentação — Trabalhos acadêmicos — Apresentação; 
  • ABNT NBR 10520:2002 - Informação e documentação - Apresentação de citações em documentos;
  • ABNT NBR 6023:2002 - Informação e documentação - Referências - Elaboração;
  • ABNT NBR 6027:2003 - Informação e documentação - Sumário – Apresentação;
  • ABNT NBR 6028:2003 - Informação e documentação - Resumo – Apresentação;
    ATENÇÃO: não faça o resumo em inglês com uso de tradutor automático, se necessário contrate alguém para fazer e/ou revisar a tradução;
  • ABNT NBR 6024:2003 - Informação e documentação - Numeração progressiva das seções de um documento escrito – Apresentação;
  • IBGE. Normas de apresentação tabular. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1993. 
  • Obs.: cuidado com a revisão geral do trabalho; se necessário, contrate uma revisão profissional.

No caso da monografia encadernada em capa dura, ver também:
  • ABNT NBR 12225:2004 - Informação e documentação – Lombada – Apresentação. 
  • Obs.: para a elaboração da ficha catalográfica, recomendo solicitar a tarfea a um(a) bibliotecário(a).

Posteriormente, para transformar a monografia em artigo, consultar:
  • ABNT NBR 6022:2003 - Informação e documentação - Artigo em publicação periódica científica impressa - Apresentação.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cuidado com a pontuação


A redação científica deve ser sempre pautada em dois aspectos: precisão e clareza. A brincadeira a seguir, fartamente reproduzida em páginas na Internet, bem mostra o quão importante é a pontuação para tais requisitos.
Um homem rico estava muito mal, agonizando. Pediu papel e caneta, e escreveu assim: “Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.” Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava a fortuna? Eram quatro concorrentes:
O sobrinho fez a seguinte pontuação: "Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."
A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito: "Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."
O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele: "Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."
Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação: "Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres."
Outro exemplo bastante vulgarizado na Internet é a seguinte frase: "Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro a sua procura." A brincadeira é colocar uma vírgula na frase. As feministas dizem que os machistas fariam a pausa antes do artigo "a" ao invés de fazê-la após o substantivo "mulher". Será que é necessário fazer uma pesquisa de opinião (qualitativa, exploratória, com questionários estruturados etc.) Para verificar a validade de tal hipótese ou poderíamos elevá-la, de antemão, à categoria de pressuposto?

domingo, 25 de julho de 2010

Alfabetização em textos científicos


Sempre brinco com os alunos de iniciação científica que, apesar de terem passado pelo vestibular, eles são analfabetos. Explico-me: analfabetos em escrita científica. Não sabem ler artigos e livros científicos e também têm enormes dificuldades para escrever textos sem "acho que", juízos de valor, referências corretas etc. 

Um dos exercícios básicos que passo a eles é confecção de esquemas, fichamentos, resumos e resenhas, discutindo suas diferenças em crescente complexidade. Existem inúmeros (nesse caso a palavra é mais do que uma força de expressão) livros e manuais dedicados ao tema. Em 2001 o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, da USP São Carlos, editou um folder referência para uma leitura eficiente de artigos científicos. (baixe aqui o folder e imprima-o). Um dos bons esquemas instrumentais que utilizo veio do antigo manual do Severino, que já era um "clássico" quando eu comecei a cursar História, na USP, em 1984. Achei uma versão pirata na Net, em ".txt", do ano 2000 (disponível aqui). 

Ler e escrever textos (sem hyper-links) é tão velho quanto andar para frente e os passos da minha 11ª edição, de 1984, continuam válidos:

LEITURA ANALÍTICA

1. Objetivos:
  • fornecer uma compreensão global do significado do texto;
  • treinar a compreensão e à interpretação crítica dos textos;
  • treinar o desenvolvimento do raciocínio lógico;
  • fornecer instrumentos para o trabalho intelectual desenvolvido nos seminários, no estudo dirigido, no estudo pessoal e em grupos, na confecção de resumos, resenhas relatórios etc.
2. Processos:

2.1. Análise textual - preparação do texto:
  • trabalhar sobre unidades bem delimitadas;
  • fazer leitura atenta e rápida da unidade para se adquirir uma visão de conjunto; 
  • levantar esclarecimentos relativos ao autor, ao vocabulário específico, aos fatos, doutrinas e autores citados, que sejam importantes para a compreensão da mensagem; 
  • esquematizar o texto, evidenciando sua estrutura de redação. 
2.2. Análise temática - compreensão o texto:
  • determinar o tema-problema, a idéia central e as idéias secundárias da unidade; 
  • refazer a linha de raciocínio do autor, ou seja, reconstituir o processo lógico do pensamento do autor; 
  • evidenciar a estrutura lógica do texto, esquematizando a sequência de idéias.
2.3. Análise interpretativa - interpretação do texto:
  • situar o texto no contexto da vida e da obra do autor, assim como no contexto da cultura de sua especialidade, tanto do ponto de vista histórico como do ponto de vista teórico; 
  • explicitar os pressupostos filosóficos do autor que justifiquem suas posturas teóricas; 
  • aproximar e associar idéias do autor expressas na unidade com outras idéias relacionadas à mesma temática; 
  • exercer uma atitude crítica frente às posições do autor em termos de:
a) coerência interna da argumentação; 
b) validade dos argumentos empregados; 
c) originalidade do tratamento dado ao problema; 
d) profundidade de análise do tema; 
e) alcance de suas conclusões e conseqüências; 
f) apreciação e juízo pessoal das idéias defendidas. 
2.4. Problematização - discussão do texto:
  • levantar e debater questões explícitas ou implícitas no texto; 
  • debater quetões afins surgidas no leitor.
2.5. Síntese pessoal - reelaboração pessoal da mensagem:
  • desenvolver a mensagem mediante uma retomada pessoal da mensagem e um raciocínio personalizado; 
  • elaborar um novo texto com redação própria, com discussão e reflexão pessoais.
Cada um desses processos implica em atividades distintas, que resultam em diferentes instrumento de textos, conforme a tabela a seguir:

Adaptado de: SEVERINO, Antônio Joaquim - Metodologia do trabalho científico: diretrizes para o trabalho didático-científico na universidade. 7ª ed. São Paulo: Cortez, 1982. p.96-98.

Como exigência nas atividades de aula tenho passado as seguintes orientações (com as ressalvas de que trata-se de uma instrução formal de aula e que indica aspectos possíveis de serem abordados, sem ser um formulário):

"Resenha crítica é entendia como uma análise interpretativa devendo abranger os seguinte aspectos:
                                                                    
  1. - situar o texto no contexto da vida e da obra do autor, assim como no contexto da cultura de sua especialidade, tanto do ponto de vista histórico como do ponto de vista teórico;
  2. - explicitar os pressupostos filosóficos do autor que justifiquem suas posturas teóricas;
  3. - aproximar e associar idéias do autor expressas na unidade com outras idéias relacionadas à mesma temática;
  4. - exercer uma atitude crítica frente às posições do autor em termos de:
a) coerência interna da argumentação;
b) validade dos argumentos empregados;
c) originalidade do tratamento dado ao problema;
d) profundidade de análise do tema;
e) alcance de suas conclusões e conseqüências; 
f) apreciação e juízo pessoal das idéias defendidas.