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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tropeços na Redação Científica 3

A ironia da ironia entre aspas


Existe, nos meios acadêmicos, um ritual mímico-verbal minuciosamente detalhado e repetido com frequência. Visualize a cena: uma aula, palestra ou apresentação de trabalho; alguém lá na frente, distribuindo seu saber; a plateia mais ou menos atenta... O apresentador
a) diz uma palavra ou conjunto delas (tais como democracia, eficiência ou boas intenções), prolongando a verbalização;
b) ao mesmo tempo, flete a articulação do cotovelo,
c) ergue as duas mãos até que elas fiquem adiante do rosto, dispostas lateralmente de forma mais ou menos paralela aos ombros e verticalmente numa altura próxima à da boca,
d) dobra os dedos mínimos e anulares das duas mãos e sobrepõe a eles os polegares respectivos,
e) estende e flete rapidamente uma ou duas vezes os dedos médio e indicador e
f) acompanha estes gestos com a expressão verbal entre aspas.
Os que assistem ao ritual entendem prontamente que o tal processo tido como democrático na verdade não o era, que as tais intenções não eram tão boas assim ou que a eficiência era qualquer coisa, menos eficiente.

Já presenciamos ou representamos esta cena tantas vezes que muitos praticam uma forma de transposição parcial daquele ritual para o que redigem. Não é raro encontrarmos textos nos quais nos deparamos com algumas palavras ou expressões breves escritas entre aspas, mas sem referências a uma fonte ou autor externo. Quando isto ocorre, podemos entender que o autor do texto indicou, através do uso das aspas, que estava utilizando as palavras delimitadas de forma relativizada e irônica.

Há quem afirme que esta prática fere as normas de redação científica segundo as quais as aspas devem servir como elementos de delimitação de trechos breves, transcritos de fontes externas. Para os defensores da obediência irrestrita às normas, esta seria uma razão suficiente para a eliminação daquele uso.

Contra esta posição, prefiro pensar que normalmente não temos dificuldade em distinguir aspas delimitadoras e irônicas pelo fato de que as primeiras são (ou devem ser) acompanhadas das referências às fontes originais. Por isto, não considero esta duplicidade de funções como um problema.

Também não defendo a posição de que um texto científico deve ser isento de afetos, de humores e de recursos de estilo literário. As expressões irônicas podem ser bem vindas.

Por outro lado, penso que não podemos abrir mão, nestes textos, da clareza na exposição das ideias e na definição dos conceitos. Frente a esta exigência, aquelas ironias podem ser prejudiciais.

Quando coloco uma palavra entre aspas desta maneira, sugiro que a tal palavra não é uma denominação adequada para aquele fenômeno ou processo. É como se dissesse que “A” não é exatamente igual a A. Isto pode até ser uma informação importante para o leitor, mas não esclarece o que é “A”.

Imaginar que “A”, além de não ser igual, é exatamente o contrário de A tampouco é satisfatório. Sugerir, através da ironia, que um processo político não é democrático só será esclarecedor se eu fornecer também informações claras sobre o que estou considerando como democracia e em que o tal processo diverge destas características.

Sem detalhamentos deste tipo, aquela pretensa ironia pode servir apenas como uma forma de transferir para o leitor algumas obrigações do autor, como a clareza e a precisão na definição dos conceitos. Ironia ou preguiça?

O irônico é que esta forma de ironia textual normalmente seja utilizada para denunciar um mau uso de um conceito, quando ela própria pode envolver outro uso inadequado do mesmo. 

Se afirmo que isto constitui um problema “sério”, você entenderá o que eu quis dizer com este sério

Sério?

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