Ambiente virtual de debate metodológico em Ciência da Informação, pesquisa científica e produção social de conhecimento

Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sugestão de atividade de reflexão coletiva


Bruno, Edson e Elaine sugerem que tod@s busquem pensar sobre as questões extraídas do capítulo 01 de Tomanik (ver post aqui), devendo, cada um, ao menos:
a) postar uma reflexão nos comments abaixo;
b) tecer alguma consideração que complemente alguma observação do colega.
obs: ao contrário da atividade anterior, não há uma ordem pré-estabelecida para colocar reflexão ou comentar pontos de vista do colega; a estrutura da atividade é livre.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Formar ou deformar?

Márcio Zardo. "Formar é formar?"Instalação (2007).
Ao ver a imagem acima no Facebook de minha amiga (e mais nova integrante do GPAF) Isabela Frade, não pude deixar de pensar na árdua tarefa que vem sendo buscada neste blog há mais de 4 anos e meio: desenformar a cabeça de novos pesquisadores, de cientistas em construção; desenformar para que possam ousar pensar sem as tão típicas viseiras dos "manuais" """científicos""" (com aspas triplas); desenformar a postura corporal (que faz com que os glúteos fiquem quase sempre molecularmente imbricados a uma carteira discente) e ter o atrevimento de ousar. Ousar escrever, ousar publicar textos inciais (mesmo que em um blog), ousar apresentar-se publicamente (mesmo que no pátio da faculdade com um banner), ousar comentar ideias já consolidadas ao invés de apenas reproduzi-las etc. Enfim: ousar pensar. 

Do pouco que conheço em ciência sei que quanto mais assertivas são as afirmações, mais vulneráveis elas serão no futuro. Mesmo assim, de momento, há algumas "verdades" que parecem ser bastante razoáveis, como, por exemplo: (a) compreender que para haver inovação em ciência é necessário uma boa dose de imaginação; (b) saber que sem imaginação e criatividade não pode haver inovação científica; e, mais ainda (para completar o relação de afirmações com a mágica quantidade de três) (c): ter a certeza de que tais qualidades não podem ser "treinadas", "ensinadas" e/ou estandardizadas 

O problema é que nós, pesquisadores mais antigos (ainda em constante construção, espera-se), temos uma tendência ao comodismo intelectual que nos faz, cada vez mais, buscar repetir soluções criativas anteriores (se faz necessário um parêntesis aqui para diferenciar o amadurecimento da criatividade da repetição de fórmulas que, um dia, foram criativas). O ideal seria que nossa capacidade de imaginar, de ousar, de desenformar, nunca se perdesse e fosse, com o tempo, sempre mais criativa, porém, em geral, isso não se verifica. De qualquer modo, estamos todos fadados ao inexorável destino de ter que um dia (por opção, por comodismo, ou por fatalidade) deixar de ser criativos e parar de contribuir com a inovação científica (o que não significa, em hipótese alguma, parar de sermos "produtivos", e/ou de publicar e cada vez mais solidificar nossos currículos, ou nosso legado, no caso de fatalidades).

O mais assustador da instalação de Márcio Zardo é o nível de correspondência que ela tem com a realidade (se não fosse pelas fôrmas nas bases das carteiras não haveria qualquer metáfora na obra). O assustador não é testemunhar gente de mente velha defendendo que a "formação" científica se dá, justamente, pelo sentido literal do termo (com fôrmas); o que aterroriza não é ter um grupo de gente de mente velha agrupado em comitês e associações dedicando-se a estabelecer parâmetros milimétricos para cada fôrma mental; o que apavora não é ter que se defrontar com gente de mente velha gastando a parcela final de sua lucidez mental para fiscalizar o cumprimento das "diretrizes" estipuladas, como guardiães da "integridade" e "qualidade" científicas; o que realmente amedronta é ver gente jovem, de mente velha, negando a própria juventude, convertendo-se, sem nenhum questionamento, em fiéis escudeiros da ordem e da fôrma, reproduzindo fórmulas arcaicas e negando-se, veementemente, a sair da casca.

Para completar a provocação, tão bem iniciada por Márcio Zardo, sugiro que cada leitor responda "sim" ou "não" para as questões abaixo:
  1. Você ousaria colocar uma ilustração na capa de sua tese/dissertação?
  2. Você se atreveria a escrever sua tese/dissertação em fonte que não fosse recomendada pela a ABNT (por exemplo em "Bookman old stlye")?
  3. Você arriscaria entregar uma tese/dissertação sem um capítulo de "conclusão"?
  4. Você entregaria um artigo para publicação sem usar a ABNT para fazer as referência bibliográficas?
  5. Você acha possível que uma tese de doutorado não tenha um capítulo específico para a metodologia?
  6. Você acha que uma pesquisa científica pode não almejar a comprovação de hipóteses?
  7. Aliás, será que é possível ter uma pesquisa sem hipóteses?
  8. É possível fazer ciência sem prospecção sistemática de dados quantificáveis?
  9. É possível fazer ciência com fatos únicos, impossíveis de serem reproduzidos (e/ou simulados parcialmente) em laboratório?
  10. É cientificamente válido que um pesquisador seja absolutamente subjetivo na escolha de sua problemática de pesquisa, na eleição de sua base empírica e no tratamento desta, desde que os dados coletados sejam fieis a tais opções?
  • Se você respondeu apenas dois "sins", talvez seja o caso de se preparar para se aposentar por idade ou nem começar a carreira de pesquisador, apenas se afiliando à ABNT como sócio benemérito.
  • Se você se considera um pesquisador experiente e respondeu entre e dois e cinco "sins", talvez seja o caso de rever seus paradigmas científicos e tentar oxigenar suas ideias conversando com pesquisadores de outros ambientes institucionais e de outras áreas (sobretudo das Humanidades).
  • Se você se é um jovem pesquisador e respondeu entre e dois e cinco "sins", tome cuidado com suas companhias de mentes mais velhas; elas podem estar minando a sua juventude irremediavelmente.
  • Se você respondeu entre dois e quatro "nãos", não se desespere, ainda pode haver salvação, porém o esforço e a vontade de sair da zona de conforto são de sua exclusiva responsabilidade.
  • Se você respondeu menos do que dois "nãos", é somente uma questão de estar sempre atento, tomando cuidado onde pisa (e onde senta), já que há outras armadilhas muito mais perigosas dos que as "quase inocentes" fôrmas de bolo de Márcio Zardo, como poderia ser uma fôrma cheia de concreto de secagem rápida (que o deixaria eternamente refém da ABNT) ou mesmo uma armadilha de caçar ursos (que minaria, definitivamente, a sua capacidade de buscar novos horizontes, o condenando a escrever inúmeros artigos sobre a mesma coisa até o final dos tempos).
  • Lembre-se que quanto mais "sins" maior será a pena estabelecida pelo Supremo Tribunal da Inquisição e da Integridade da Ciência.
EM TEMPO: o blog recebeu um boa sugestão de Eduardo Tomanik e acrescenta uma nova questão:
"Você entende como válido um projeto científico que possa abrir possibilidades de que a teoria básica e a(s) hipótese(s) não seja(m) (re)confirmada(s)?"Obs: para não quebrar os cabalísticos números da pesquisa tradicional (1, 3, 5, 10, 50 ou 100) fica permitido ao leitor que escolher responder a questão extra se eximir de responder uma das 10 questões elencadas anteriormente, sem prejuízo da análise quantitativa do score de "sins". 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A ciência nua e crua


O que separa a simples indagação, ingênua, de uma criança - sobre, por exemplo, por que existe dia e noite -, de uma verdadeira pesquisa "científica"? Uma listagem das diferenças contemplaria inumeráveis itens; dentre eles, alguns relacionados à institucionalização da produção do conhecimento e à legitimação institucional do modo de produzir tal conhecimento. É isso mesmo, trata-se de legitimação dos métodos e de instituições legitimadoras de tais métodos e resultados; esse últimos, nessa acepção, importam muito pouco. A boa instituição é aquela que produz excelentes indicadores de, por exemplo, artigos publicados. Quem os lê e qual a qualidade dos mesmos são questões irrelevantes. Tentando solucionar esse problema, outros indicadores foram criados: por exemplo, sobre o impacto e as citações feitas aos textos. Novamente, ao invés de trabalhar com os objetos concretos, continua-se a lidar com simulacros do real, espectros do conhecimento, a ponto de, como sói acontecer nas instituições e práticas científicas, a representação passar a ser mais importante do que seu referido, em um círculo vicioso de reificação. 

A grande questão parece não ser a prática da substituição em si, porém o discurso falacioso, vazio e hipócrita de pesquisadores supostamente comprometidos com a produção de conhecimento científico social e historicamente relevante, mas que, na verdade, apenas se comprometem com suas verbas, as estatísticas e a legitimação de tal cenário por seus pares. Aos poucos que se esforçam para não jogar esse jogo, mesmo estando à mesa, geralmente restam três caminhos: o conformismo alienado, a resistência em trincheiras e a desistência honrosa. Um simples olhar para alguns colegas e espaços administrativos de qualquer universidade é suficiente para caracterizar o primeiro tipo. As trincheiras isoladas, a cada dia, graças às redes sociais e às TIC, conseguem começar a incomodar, porém, ainda de modo muito limitado em termos de escala. Muitos dos posts difundidos neste blog podem servir como ilustração de algumas dessas práticas de resistência, seja por eles mesmos, seja por situações e textos neles abordados. 

O post de hoje visa trazer à baila o recente protesto/denúncia feito por um estudante de doutorado que, após se cansar das práticas hipócritas e autolegitimadoras da academia, optou por largar o curso, escrevendo uma carta de desistência que permite discutir muitos aspectos interessantes sobre o fazer ciência, além de desnudar, despudoradamente, alguns mantos intocáveis da "academia". Sua carta, que é quase um ensaio (mas não seria aceita para publicação por nenhuma revista "tradicional", por não ter uma seção "metodologia") traz, além da introdução, as seguintes partes: (i) "Academia: não é ciência é um empreendimento"; (ii) "Academia: “Trabalhe duro, jovem Padawan, para que algum dia você também possa dirigir seu próprio laboratório"; (iii) "Academia: a mentalidade da cabeça"; (iv) "Academia: onde a originalidade te destruirá"; (v) "Academia: o buraco negro do oportunismo na pesquisa"; (vi) "Academia: estatísticas a granel"; (vii) "Academia: a terra selvagem dos egos gigantes"; (viii) "Academia: o maior truque jamais realizado foi convencer o mundo sobre sua necessidade".

A discussão sobre se é mais fácil fugir do que lutar escapa ao âmbito desse blog. O interesse recai sobre o texto apresentado e sua argumentação e não sobre a decisão pessoal tomada. 

Aceda ao texto original aqui e lembre-se, durante a leitura, da escola de bruxaria tão bem retratada pela autora de Harry Potter, cuja inspiração é, em boa parte, oriunda dos muros da academia.

terça-feira, 2 de abril de 2013

1ª atividade da disicplina


As dúvidas e questionamentos operam um papel fundamental na ciência. Muitas vezes coisas tidas como "tolas" têm a capacidade de impulsionar a transformação de conhecimentos consolidados e abrir o caminho para transformações profundas. Na maioria das vezes, porém, as tolices continuam a ser o que eram, porém de modo não exclusivo, já que muitas "verdades científicas indiscutíveis" com o passar dos tempos não se revelam mais brilhantes do que certas ingenuidades atuais. 

A atividade preparatória para a aula do dia 4/abr, consiste em ler o texto sobre o conhecimento científico de Vanessa Bárbara (link aqui) e comentá-lo, tendo em vista a própria experiencia em pesquisa científica. Os comentários devem ser feitos no campo comment abaixo e são obrigatórios para os alunos da disciplina 2013 e optativos para todos os demais leitores do blog que queiram participar.

Outros textos que podem estimular o debate podem ser acessado nesse post aqui.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sobre a subjetividade científica

Copiado de Psicologia aplicada às organizações
Por Helda Pinheiro
(bibliotecária, aluna especial do PPGCINF/UnB)

Ao pesquisar para responder as questões do blog, cujo tema era " Existe Neutralidade e Impacialidade na Ciência?" (ver post aqui),encontrei esta pérola sobre Ciência, do Max Weber, que quero partilhar com vocês:
“O fim precípuo de nossa época, caracterizada pela racionalização, pela intelectualização e, principalmente, pelo 'desencantamento do mundo' levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes. Esses valores encontram refúgio na transcendência da vida mística ou na fraternidade das relações diretas e recíprocas entre indivíduos isolados.”
(Max Weber. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2006).
Eis a minha opinião:
concordo com o Weber, pois entendo que por mais que a Ciência evolua o grande mal dela é estar apartada da espiritualidade, da "transcedência da vida mística", pois acredito que fazemos parte de um todo e não há como separar, a presença da unidade, interligada a tudo na existência, está sempre conosco. Ela é o que somos, infelizmente não temos consciência deste fato.

Por favor comentem também para que continuemos refletindo sobre a ciência e suas incertezas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sobre o Conhecimento Científico

copiado de Galeria de Raoultrifan
Thiago Moraes (mestrando do PPGCINF-UnB)

Nas discussões em sala de aula sobre “o que é Ciência” e o “como fazer Ciência” nos deparamos com questionamentos sobre a natureza do conhecimento científico. Esta, muitas vezes é erroneamente apresentada como existente em um senso comum, onde um conjunto de regras pré-estabelecidas seriam suficientes para nortear todo o processo científico. Há, porém, uma série de fatores que influenciam esse processo e vêm por alterar a sua fundamentação. Com o objetivo de elucidar algumas dessas reflexões, exponho algumas opiniões extraídas dos textos de Tomanik (2004) e Furlan (2003). Este último autor, elaborou um artigo em que apresentou teorias que polarizaram as discussões da filosofia da ciência nas últimas décadas e serão comentadas a seguir. 

Por muito tempo, o conhecimento científico esteve suportado pelo Conceito de Indução, em que a Ciência poderia ser certa e segura, se interferências que distorcem seu verdadeiro sentido fossem eliminadas. Francis Bacon (1561-1626), autor conhecido como fundador do empirismo defendeu essa idéia nas obras que compôs em sua vida. Ao afirmar que o método científico era um método baseado em observação, que deveria ser rigorosa e isenta de preconceitos, Bacon acreditava que existiam regras precisas para a construção da ciência da natureza. 

A primeira crítica ao empirismo veio com David Hume (1711-1766) que atacou o princípio de causalidade, que é o raciocínio experimental pelo qual do presente se conclui o futuro (Ex: a água colocada no fogo vai ferver, a barra de metal aquecida vai se dilatar, amanhã fará dia etc.). Hume afirma que muitas vezes afirmarmos mais do que vemos, e assim deixamos de conduzir uma experiência imediata para fundamentar os fenômenos observados. Esse posicionamento de Hume não nega o empirismo. Ele apenas expõe uma visão de ceticismo: explicar psicologicamente a crença de um fenômeno no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. Do particular (ocorrências datadas e situadas) não se pode inferir com necessidade o universal, que é o que interessa à ciência na elaboração das leis da experiência. 

Na época Contemporânea, Popper (1959, 1999) veio com uma crítica ao princípio da indução, afirmando que esta é um mito, não apenas do ponto de vista lógico, mas da prática científica. Popper diz que não se espera a repetição ou a sucessão de eventos para, então, indutivamente, chegar a conclusões sobre os problemas. Salta-se para hipóteses arriscadas que são testadas depois passo a passo. Dessa forma, o método indutivo estaria na origem das teorias científicas, ignorando a importância da presença de hipóteses e teorias para a organização da experimentação. 

Popper defende a metodologia falsificadora da ciência, passando a exigir que toda teoria com pretensãode cientificidade possibilite a dedução de proposições que, se ocorrerem, a falsifique, ou, que proíbao aparecimento de certos fatos, sendo tanto melhor quanto mais proíbe, ou maior seu conteúdo empírico. Dessa forma, enxerga que a ciência consiste de conjecturas ou enunciados universais na solução dos problemas, e a partir deles faz-se a dedução da ocorrência de fatos que, caso não ocorram, contradizem o enunciado geral, falsificando a teoria proposta. 

A falsificação de uma teoria, porém, não invalida esta de imediata. Para Popper existe a possibilidade de criação de hipóteses auxiliares, na tentativa de se salvar uma teoria, mas as alterações devem levar à previsão de fatos novos (falseáveis) e não ao enfraquecimento da estrutura lógica da teoria. 

Outro autor que critica o princípio da indução, mas de forma mais branda é Hempel (1981) que chama a atenção para o fato de que, sem a criação de hipóteses, o método indutivo não pode ser operante, isto é, que ele depende de hipóteses que discriminam elementos relevantes para o problema, para então verificá-las indutivamente. 

Popper salienta dois aspectos no desenvolvimento da ciência: a) conjecturas teóricas arriscadas b) refinação de teorias estabelecidas. Chalmers (1993), defensor da visão criticista de Popper, afirma que não se aprende, ou se aprende muito pouco, com conjecturas cautelosas, porque estas mais confirmam o conhecimento atual do que possibilitam avanços significativos nas teorias; elas são sempre conservadoras. Conjecturas arriscadas, ao contrário, rompem com a maneira comum de pensar, e por isso, quando confirmadas, representam avanços significativos. 

Outro autor considerado marco na filosofia/história da ciência foi Thomas Khun (1992). Em sua obra, a Estrutura das Revoluções Científicas, apresenta um relato histórico do desenvolvimento da ciência. Sua obra é considerada uma crítica à visão popperiana, não no sentido de atacar diretamente as visões deste autor, mas porque Kuhn incentiva uma visão acrítica do cientista. Este autor popularizou o termo “paradigma” que representa o pressuposto comum de uma comunidade científica, que envolve determinada concepção de mundo e um conjunto de regras de procedimentos de pesquisa. Em síntese, o paradigma é a base comum de acordo da comunidade científica, a partir da qual se desenvolvem suas pesquisas e a discussão de suas questões, e é o que Kuhn chama de teoria, no sentido amplo do termo, para enfatizar que a ciência normal não a toma como foco, isto é, não está interessada em discuti-la, mas em resolver quebra-cabeças que são questões presentes no desenvolvimento da aplicação do paradigma à realidade. 

Kuhn defende que o cotidiano da prática científica está voltado para atividades “corriqueiras” de solução de quebra-cabeças no interior do paradigma. Assim, discorda da visão de Popper, que privilegia os momentos de ruptura da ciência. Para Kuhn, é comum a presença de anomalias na comparação de uma teoria científica com a realidade, interpretadas ora como um problema de quebra-cabeças, isto é, solucionáveis no interior do próprio paradigma, ora simplesmente ignoradas. Portanto, não existem experimentos cruciais no desenvolvimento da ciência. 

Lakatos (1979) defende este posicionamento de Kuhn e propõe, em substituição ao critério popperiano de falseabilidade, a idéia de programas de investigação como metodologia das teorias científicas, que consiste em um núcleo teórico que deve orientar as pesquisas futuras para o seu desenvolvimento. Esse direcionamento é indicativo e proibitivo ao mesmo tempo, pois dirige as pesquisas no sentido de aplicação da teoria à realidade, conduzindo, se o programa tem êxito, à descoberta de fatos novos e ao desenvolvimento de teorias auxiliares. Porém, ela proíbe o questionamento do núcleo básico da teoria, por este representar a tenacidade do programa, sua persistência, a despeito das anomalias ou incongruências com a experiência. Em outras palavras, a teoria não é falsificável no núcleo básico, está protegida por um cinturão de hipóteses auxiliares, "que tem de suportar o impacto dos testes e ir se ajustando e reajustando,ou mesmo ser completamente substituído, para defender o núcleo assim fortalecido" (Lakatos&Musgrae, 1979) 

Mas a visão de Lakatos não é diametralmente oposta à de Popper, e ele defende algumas opiniões deste autor. Assim, também acredita na idéia de um progresso determinado por avaliações racionais na solução de seus problemas e na substituição de teorias. A distinção entre programas progressivos e degenerativos é um indicador de avaliação. 

Ao contrário do que se possa pensar, essas distinções de pensamento não derrubam a validade das metodologias científicas. Em seu artigo, Furlan enfatiza que há pontos comuns entre Popper e Lakatos e Kuhn. “Um dos principais é o de que enunciados de percepção dependem de teoria.” (Furlan 2003). Apesar desta visão ser enfatizada mais por Kuhn, Popper também acredita nisso ao dizer que não há experiência pura, uma vez que toda ela é organizada por questões, expectativas e teorias; o autor reconhece, inclusive, o importante papel dos mitos na organização da experiência de mundo, quando nãoera possível partir de teorias mais elaboradas sobre a realidade. 

Chalmer (1993) comenta que, para Popper e Lakatos, "a história do desenvolvimento interno de uma ciência será 'a história da ciência descorporificada'". Por ciência descorporificada, se entende o conhecimento objetivo, que transcende o sujeito que o possui. 

É criticada assim, a possibilidade de uma linguagem neutra na observação, o mito de que a experiência dos sentidos é fixa e neutra. Essa opinião também é defendida por Hume. 

Esta revolução do conhecimento científico é importante para percebermos que a visão empiricista da ciência não é mais suficiente para se fazer ciência: novas filosofias devem ser aceitas, principalmente no que concerne as ciências sociais. 

Em um próximo texto, discutirei a não-neutralidade da ciência, no sentido que as formações socioculturais do pesquisador são capazes de influenciar a elaboração do conhecimento científico. 

Referências: 
TOMANIK, E. A. O que é a ciência? A ciência no discurso dos cientistas. In: ____. O olhar no espelho: conversas sobre a pesquisa em ciências sociais. 2. ed. rev. Maringá: Eduem, 2004. p. 55-114. 
FURLAN, R.Uma revisão/discussão sobre a filosofia da ciência. FFLCRP – Universidade de São Paulo, 2003. 
MUNDO DOS FILÓSOFOS. Francis Bacon. Disponível em: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/bacon.htm> Acesso em: Junho de 2011 
MUNDO DOS FILÓSOFOS. David Hume. Disponível em: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/hume.htm> Acesso em: Junho de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Questionamentos na Ciência...

Fonte: Ganso Bicudo

 Por: Carlos H. J. Silva*

A imagem acima é uma provocação à questão da verdade científica. Acreditar cegamente no que a ciência diz, pode nos levar a não acreditar no real. Na imagem acima, apesar de ser uma brincadeira, utiliza-se de duas teorias populares: a já mega conhecida e “comprovada” Lei de Murphy (cujo um dos princípios é de que o pão sempre caíra com a manteiga pra baixo ou suas variantes) e outra Lei, da qual não sei o nome, que diz que todo gato sempre cai em pé, assim vou chamá-la de Lei do Gato Em Pé. 

Partindo da idéia de que ambas as leis são verdadeiras, na teoria as duas unidas resultarão num gato flutuante, correto? Em teoria sim, mas a realidade é essa? Acredito que não, pois nunca tentei colocar um pão com a parte da manteiga voltada para cima nas costas de um gato e o soltei de altura considerável, mas creio que o máximo que acontecerá é o gato cair em pé e o pão cair no chão... 

Mas o que quero dizer com isso? Quero dizer que a ciência deve ser refletida, pois ela não porta uma verdade absoluta e, sim, uma verdade momentânea, mesmo que meus exemplos não sejam “científicos”, servem perfeitamente de parâmetro para o que quero dizer. Assim, o questionar faz parte da ciência, pois é o colocar em xeque que faz a ciência caminhar. Refletir na ciência sobre a ciência é parte da construção do conhecimento humano. 

Nesse contexto, pensar sobre o que lemos e escrevemos (sim, afinal devemos estar atentos ao que produzimos também!), fazer críticas, tecer comentários, estudar mais profundamente um assunto, dar um feedback ao pesquisador etc, faz com que a ciência evolua. Pensar o trabalho alheio faz com que novas pesquisas surjam, que novos rumos sejam traçados dentro de outras pesquisas. Assim, o criticar, no sentido de contribuir, pode ser mais útil à ciência do que um trabalho que não passa pelo crivo crítico. 

Para o pesquisador, dessa forma, o comentário de seus pares é um dos aspectos mais importantes da construção e desenvolvimento da pesquisa científica, pois tais comentários podem servir de parâmetro para que ele verifique se está ou não no rumo certo em suas pesquisas ou até mesmo um teste para saber como seu trabalho será recebido na comunidade científica. Aliás, tal “sociedade invisível” (ou colégio invisível, como queiram) de pesquisadores é um dos meios mais importantes tanto na avaliação como na divulgação científica, pois é ela quem julgará ou não a validade do seu trabalho, proporá mudanças, enfim, a comunidade científica são os pares dos quais falamos anteriormente e são eles os responsáveis por mover a ciência rumo à novas pesquisas, novas vertentes, novas ciências, novos conhecimentos. 

Referência:
MUELLER, Suzana Pinheiro Machado. O crescimento da ciência, o comportamento científico e a comunicação científica: algumas reflexões. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v. 24, n. 1, p. 63-84, jan./jun. 1995.

* Carlos é aluno especial do PPGCINF-UnB e autor do blog Relatos de Memória.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Existe neutralidade e imparcialidade em ciência?

Copiado de Withe of their Lies
Muito tem sido dito à respeito da neutralidade e imparcialidade da ciência. O objetivo deste post é saber qual a SUA opinião sobre o assunto. A atividade sugerida é a resposta ao formulário abaixo, com um número reduzido de questões. O preenchimento pode ir de 2 mim à uma eternidade, dependendo do nível de reflexão suscitado pela última pergunta.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O conhecimento científico é...

Copiado de Science Progress
Uma das atividades que realizamos na aula do dia 16 foi identificar características do conhecimento científico utilizando Quadro 1 do Tomanik (cap. 3) como base. O processo consistiu em votação simbólica. Os 22 participantes (21 alunos + professor André) levantavam o dedo para expressar se Sim ou se Não existe tal característica. O resultado foi o seguinte:


Enquanto não existe consenso de característica do conhecimento científico nas citações dos autores analisados por Tomanik, 8 das 26 foram unânimes na contagem realizada. Elitista, fenomenológico e cumpre uma missão foram exemplos de características possíveis expostas em sala de aula. Das que deram empate (favoráveis = contrários): acumulativo; e claro preciso; constante. Os menos consensuais foram: certo e/ou previsível; falível; geral. Das características analisadas por Tomanik, critico a opção certo e/ou previsível pois gera dúvida na interpretação lógica.  

Vale observar que o processo de votação não foi nominal, eu não informava o total de votos ao final da contagem, a forma de informar as características para os votantes variou no decorrer do processo e a forma de contagem dos votos também, inicialmente foram contatos os favoráveis (sim) e os contrários (não). A partir da quarta característica, a contagem foi feita dos contrários a característica e considerado favoráveis os que não se manifestavam.

Processo de votação não é fácil.


Por Frederico Palma

domingo, 29 de maio de 2011

Leituras iniciais sobre ciência

Copiado de Bichos Brasil
Fernandez Kenji Inazawa
(Bibliotecário, especialista em Gestão do 
Conhecimento e mestrando no PPGCINF-UnB)

O texto de Newton Maia é uma leitura bem humorada e leve sobre ciência, que foi indicada pelo professor de metodologia. 

O texto fala que nem tudo precisa ser científico para ser verdadeiro, ou até mesmo válido, pois a ciência se ocupa com teorias, e verossimilhanças, e não com verdades. Existem coisas que são verdadeiras, mas que não são consideradas, necessariamente, científicas.

O que distingue a ciência de outros saberes é o método. O importante é ter método para se observar e expressar de uma forma clara o que foi observado. E não podemos esquecer do objetivo, é claro, pois qualquer um, a priori, pode estudar qualquer coisa, mas focar é muito necessário. Einstein observou e expressou a teoria da relatividade pela formulação matemática, método próprio das ciências naturais. As ciências sociais tem outras formas, tão válidas quanto, de observação e apresentação de suas conclusões através de métodos próprios.

Há uma parte interessante sobre a questão controversa entre ciência e religião. Eu lembrei do livro "Vírus da mente", cujo autor diz que as idéias da religião são vírus, por que não podem ser comprovadas pela ciência, que não é beeem assim. O texto de metolodologia toca no assunto de misturar saberes e opiniões diferentes, e propõe um jeito bem legal de olhar para esse problema.

Não é um texto acadêmico, mas uma opinião muito particular de um cientista, com uma linguagem bem descompromissada. Mas é legal.

O texto de Tomanik também é muito bom de ler. E a primeira afirmação que ressalta aos olhos é a explicação do porquê do título "Olhar no espelho", que está relacionado ao preponderante papel do observador nas ciências sociais. O que esse consegue ver é apenas um imagem de si mesmo, uma interpretação da realidade, que por vezes poderá até ser fiel, mas nunca será a própria realidade.

Maia e Tomanik expressam a dificuldade de definir ciência. Contudo, Maia está bem humorado, não se esqueça disso, e propõe uma definição de "terceira categoria". Eu ri muito da gracinha.

Gracinhas à parte, vamos ao que interessa. Tomanik fala que a ciência não é um agrupamento imóvel de teorias e leis; por que ela estudar a realidade, a qual é mutável; por que a tecnologia auxiliar amplia a dinâmica de observar a realidade e de produzir conhecimento; o fato de o que é afirmado hoje, muitas vezes, pode ser desdito amanhã; e por fim, a ciência surge das necessidades flutuantes do homem, e na medida em que estas se alteram, os objetivos da ciência também se alteram.

Tomanik me incomodou um pouco quando abordou sobre a ciência precisar ter aplicação prática, ele diz assim "[...] descobrir soluções de problemas é a função da ciência". Maia e Santos também parecem que sentem o mesmo incômodo que eu. Não concordam com essa visão utilitarista. Mas, Tomanik se contradiz quando fala que o conhecimento da teoria e das formas de investigação próprias da área de formação acadêmica dos futuros profissionais de curso superior é indispensável, ou seja, ele não pode ser somente um técnico com um diploma na mão, pois os desafios do mercado pedem pessoas que saibam "adaptar soluções" de acordo com "cada problema". 

Com relação às ciências humanas, Santos não se esquiva de se posicionar contra o utilitarismo implantado na mente da sociedade quanto à ciência, que pensa que é necessário apenas olhar o presente, mas a tarefa da universidade é conquistar o futuro, é olhar para a frente.
************************
OBS
  • Uma versão menos coloquial do texto de Kenji pode ser baixada aqui
  • Outro comentário sobre os mesmos textos, por outro autor, pode ser visto aqui.

REFERÊNCIAS: 
  • TOMANIK, Eduardo Augusto. Algumas noções preliminares sobre a ciência: por que pesquisar? In: ____. O olhar no espelho: conversas sobre a pesquisa em ciências sociais. 2. ed. rev. Maringá: Eduem, 2004. p. 13-29. 
  • SANTOS, Mílton Almeida dos. As humanidades, o Brasil, hoje: dez pontos para um debate. In: HUMANIDADES, pesquisa, universidade. São Paulo: Comissão de Pesquisa/FFLCH-USP, 1996. p.9-13. 
  • FREIRE-MAIA, Nilton. O que é ciênciaCadernos do IFAN. Bragança Paulista: USF, nº 16, 1997. p. 51-87.
************************

Como modo de ampliar a discussão tão bem iniciada pelo Kenji, sugiro que cada um que cada pesquisador reflita sobre os tópicos abaixo, extraídos do livro do Tomanik, tendo como contraponto de discussão o próprio projeto:

CAP 1 - O que é ciência?
1.1. Ciência: Constantes transformações - identificar na proposta:
a) possibilidades de mudança da realidade;
b) possibilidades de novos campos em relação ao avanço científico da área;    
c) possibilidades de críticas;
d) pertinência da proposta em relação às modificações da sociedade.
1.2. Objeto: necessidade de definição - identificar na proposta: 
a) qual é o objeto (tema) principal e quais áreas do saber estão relacionadas? 
b) idem objetos derivados.
1.3. Método: importância a do método para elaboração de novos conhecimentos e vice-versa - identificar na proposta::
a) possibilidades de elaboração de novos conhecimentos.
1.4. Objetivos/Razões: foco nos objetivos gerais, os motivos para se realizar tal pesquisa - identificar na proposta:   
a) grandes objetivos que pretende atingir;    
b) principais motivos para realizar a pesquisa;
c) limites entre o que se quer e o que será feito.
1.5. Dificuldades: nem tudo são rosas, trabalho árduo, com mais fracassos que sucessos - identificar na proposta:   
a) principais entraves;
b) possibilidades de fracasso;
c) competências a serem adquiridas.

A lista acima não é um questionário. Representa apenas um rol de possíveis pontos de reflexão a serem, eventualmente, desenvolvidos (ou não) pelos interessados, sob as mais diversas formas: comentário neste post, elaboração de paper, elaboração de postagem para blog, excerto da reflexão teórica da própria pesquisa, início de artigo etc.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A dúvida da dúvida

A ciência é feita por verdades absolutas ou a consciência de uma ciência falível se faz importante para o seu próprio aprimoramento ao longo de sua trajetória? Lembro que muitas questões desse gênero foram discutidas no decorrer da disciplina de Metodologia. Além do fato de que a ciência, como um saber que beira muitas vezes os ares da intensa presunção, se apresenta sob fórmulas eruditas de expressão, escondendo erros e equívocos pela dificuldade de entendimento de um público mais amplo. Falar difícil, nesse caso específico, é esconder passos escorregadios. É pensar que se caminha sobre o cimento duro, quando se mergulha em areia movediça.

Pensando nesses pontos, a revista eletrônica Edge, que faz todos os anos uma pergunta aos cientistas com o objeto de destacar tendências nos rumos do pensamento científico, publicou as respostas do seguinte questionamento: "Qual conceito científico poderia aprimorar a ferramenta cognitiva de uma pessoa?" E nos parece que a dúvida foi o conceito mais citado dentre os pesquisados. Confira AQUI e tire suas próprias conclusões... ou suas próprias dúvidas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Diálogos sobre ciência: Descartes e Hume (parte I)


Nariz extremamente grande, tipicamente nórdico, olhos intensamente pretos, sobrancelhas grossas e um bigode que lembrava o seu José, o dono da padaria aqui perto da minha casa. O seu companheiro de conversa se apresentava com uma roupa vermelha, não muito apropriada aos padrões da moda, cabelos brancos e encaracolados, os olhos nitidamente claros, reforçados pelo reflexo daquela tarde ensolarada de domingo em Brasília. Foi assim que sentei ao lado da mesa onde Descartes sentia-se de certa maneira embaraçado pelos questionamentos feitos por David Hume, enquanto os dois tomavam uns Chopps e debatiam a natureza das ciências e suas implicações, no Libanus, aqui da 206 sul. Atento ao diálogo, percebi o tom claro em que Descartes exemplificava o seu método racionalista.

- Hume é simples, não complica, cara! Para se obter as verdades segundo o meu método racionalista é preciso pensar que se balance a árvore. A minha dúvida sobre as certezas que antes eu tomava como verdadeiras faz com que eu balance a árvore, e tudo aquilo que vai ao chão é jogado de lado e tido como falso. Em resumo, o que fica na árvore se sustenta como claro e distinto e pode ser tomado como verdadeiro. Thomas Kuhn - por falar nisso onde está ele que não veio? - chamaria de "paradigma" a estrutura das frutas que se sustentam, segundo as crenças de uma comunidade científica específica.


 - Ok, ok. Mas o que sustento é que não existe conhecimento algum que possa ser demonstrativo, toda maneira de conhecimento é sempre provável e empírica. É preciso que eu realmente balance a árvore e não simplesmente pense como seria se eu a balançasse. Além disso, o que te faz ter a certeza de que o próximo Chopp que o garçom me traz esteja gelado? Provavelmente, o fato de ter vindo aqui várias vezes e tomado vários gelados faz com que, por hábito, tenha a segurança de que esse fato sempre ocorrerá. Logo, estando os objetos em circunstâncias já vivenciadas temos naturalmente a crença de que sempre ocorrerá as mesmas consequências, ou seja, o Chopp estará trincando. Mas nada exclui a possibilidade de que ele esteja quente e eu tenha que reclamar e pedir outro. E a isso nomeio "Conexão Necessária". Por isso afirmo que não há ciência, se por ciência entendermos conhecimento certo. Essa espécie de ciência pertence apenas às ciências demonstrativas, isto é, às matemáticas e à geometria. Por sinal, o Chopp está mesmo trincando. O hábito e a crença venceram mais uma vez. Vamos tomar mais um e depois continuamos a nossa conversa.

Fiquei ali de lado, observando o diálogo desses dois seres humanos que pareciam estar fora de contexto, numa outra época que não aquela, em pleno século XXI, assistindo a mais um jogo de futebol do campeonato brasileiro. Pelo jeito o Fluminense ia ser mesmo o campeão. O meu próximo passo não poderia ser outro, a conexão necessária, definida por Hume, mais uma vez se apresentava: "Garçom, uma cerveja e um copo, por favor!".

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

UNESCO lançou ontem relatório mundial sobre ciência


Ontem a UNESCO publicizou seu relatório quinquenal relativo ao desenvolvimento mundial da ciência. De acordo com a apresentação da obra, o relatório busca espelhar o desenvolvimento da ciência nos cinco anos recentes, apesar de trabalhar com dados macroeconômicos de 2007. A pesquisa trabalha com segmentação de dados em quatro perspectivas: nível de desenvolvimento, continentes/regiões, comunidades econômicas e países selecionados. Nessa última segmentação é possível analisar comparativamente o Brasil em relação a outros países (emergentes e desenvolvidos). 

Os organizadores indicam que o avanço da informação digital e das TICs está alterando o desenvolvimento da ciência e, em minha opinião, aumentando o fosso informacional e as correspondentes desigualdades entre países e regiões. Uma frase emblemática na apresentação denota a crescente importância do acesso à informação: "A acessibilidade à informação codificada em torno do mundo está tendo um efeito radical na criação, acumulação e disseminação de conhecimento (...)" (UNESCO 2010, p.2). Ou seja, países e regiões se desenvolvem mais (ou menos) não apenas em função da qualidade e quantidade de sua produção científica, mas também (ou principalmente) pela capacidade de armazenar, compartilhar, difundir e acessar informação científica significativa. Guardadas as devidas (e imensas) proporções, espera-se que a prática da manutenção de um diário aberto de pesquisa (na forma de blog, por exemplo, com links, informações, documentos, conclusões parciais, artigos etc.) induza os jovens pesquisadores a trabalharem na redução do fosso informacional, contribuindo para a diminuição das disparidades científicas regionais.

Clique aqui para fazer o download do relatório em português, ou acesse aqui a página de referência da UNESCO relativa à obra, com resumo e outras opções de formato do relatório (impresso e em outros idiomas).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Pesquisa sobre valores políticos - PARTICIPE



Peter Ulrich Vieth Black, mestrando do Programa de Pós Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, da UnB, solicita participação dos leitores deste blog em sua pesquisa. Assim como eu, Peter é contra o exercício da "cobaiização" dos depoentes na pesquisa social. E, como bem defende Tomanik, ele também é absolutamente favorável a manter seus depoentes informados sobre a pesquisa, com o devido cuidados de não comprometer a integridade dos dados a serem obtidos:
"Você está sendo convidado(a) a participar de uma pesquisa sobre valores políticos. As questões apresentadas nas próximas páginas indagam suas idéias e opiniões a respeito de alguns assuntos importantes e da forma que a nossa sociedade funciona. Também lhe é perguntado o que é importante para você e o quão similar ou diferente você é de outras pessoas. Essa pesquisa está sendo coordenada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (Brasília – DF). Você irá demorar entre 10 e 15 minutos para responder a todas as questões. Nós agradecemos a sua colaboração e por nos ajudar a compreender como o brasileiro escolhe em quem votar. Quaisquer dúvidas ou comentários, por favor, escreva para o pesquisador principal [peter.uvb@gmail.com]
[...]
Muito obrigado por sua participação
Para colaborar acesse o link da pesquisa clicando AQUI

Leia mais sobre a opinião deste blog em relação a necessidade de informar o depoente sobre a pesquisa acessando post aqui.

Um bom exemplo para situar o depoente nos objetivos da pesquisa, foi feito por ex-aluna desta disciplina, que disponibilizou o acesso ao seu blog, onde pode-se encontrar diversar informações. Ver post aqui,

Além do convite, Peter disponibiliza aos interessados a ficha técnica de sua pesquisa:

VALORES HUMANOS FUNDAMENTAIS, VALORES POLÍTICOS CENTRAIS E VOTO.
Peter Ulrich Vieth Black, peter.uvb@gmail.com.br
Mestrando (2/2009)
Orientador: Claudio Vaz Torres, claudio.v.torres@gmail.com
Laboratório de Psicologia Social
Linha de Pesquisa: Conteúdos e processos psicossociais do comportamento humano

O comportamento eleitoral é um dos comportamentos individuais mais complexos e sua análise tem sido objeto de discussão desde a criação da democracia. Nas últimas décadas a literatura tem privilegiado a idéia de que o voto, em seu nível individual, é determinado por três fatores: predisposições políticas, interesses pessoais e valores individuais. Esta pesquisa, que utiliza como referencial teórico a Teoria de Valores Humanos Individuais de Schwartz (1994), tem como objetivo analisar como um destes elementos, os valores individuais, influenciam no comportamento eleitoral. Para isso, pretendeu-se identificar a relação entre os valores humanos fundamentais e o que chamamos de valores políticos centrais, identificando a sua influência no comportamento eleitoral dos indivíduos. Para tal, uma medida de valores políticos centrais foi adaptada e validada no Brasil. Essa validação foi feita como primeira etapa desta pesquisa, contando com 998 participantes, sendo 56 % mulheres, média de idade de 26,52 anos (D.P.=12,54), 43% casados e 74% responderam por meio de questionário eletrônico. Como resultado desta etapa obteve-se 8 fatores explicando 48,48% da variância e com dois itens da escala sendo retirados. Assim, três proposições foram formuladas para a segunda etapa: a primeira é que os valores humanos organizam e dão coerência aos valores políticos centrais; a segunda é que os valores políticos centrais mediam a relação entre valores humanos e voto; a terceira é que diferentes estruturas de valores predizem a intenção de voto em diferentes candidatos que concorrem ao cargo de Presidente da Republica Federativa do Brasil na eleição de 2010. O instrumento a ser utilizado constará de quatro partes: a primeira é composta do Questionário de Valores Humanos de Schwartz; a segunda, de questionário de Valores Políticos Centrais; a terceira, de questionário com itens sócio-demográficos e uma medida de posicionamento político e voto. A coleta será realizada entre os dias 10 de setembro de 2010 e 03 de outubro de 2010, dia em que ocorre a eleição presidencial brasileira. A meta é coletar 450 respostas sendo dois terços por meio de questionário eletrônico e um terço por meio de instrumento impresso a ser aplicado no posto de atendimento ao cidadão, Na Hora, localizado na Rodoviária do Plano Piloto, Brasilia. Será realizada ainda uma terceira etapa após a eleição, quando, por meio de e-mail, fornecido na segunda etapa, será investigado em qual candidato a presidente o participante efetivamente votou. Acredita-se que esse dado poderá ser utilizado como critério de confirmação da predição proposta. Para a análise dos dados serão utilizadas regressões hierárquicas, uma vez que já se tem um modelo teórico da relação entre valores básicos, valores políticos e voto. Espera-se que com este estudo se compreenda melhor como e até que ponto os valores influenciam no comportamento eleitoral.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O que é Ciência?
tópicos para reflexão.



Após a apresentação dos seminários sobre ciência recomendo que todos os alunos do curso  reflitam sobre as próprias propostas de pesquisa em relação à visão empiricista e em relação à crítica humanizadora, tendo como parâmetro de discussão a análise feita por Eduardo Tomanik no capítulo 3 d'Olhar no Espelho. A título de indução, sugere-se que os interessados anilsem os tópicos elencados abaixo do modo que julgarem mais apropriado: comentário neste post, elaboração de paper, elaboração de postagem no próprio blog, excerto da reflexão teórica da própria pesquisa etc.

CAP 3 - O que é ciência? 
3.1. Visão empiricista:  identificar (ou estabelecer) na proposta sua posição quanto à 
  • a) objetividade/ neutralidade; 
  • b) observação; 
  • c) experimentação; 
  • d) explicação/descrição do fenômeno ou compreensão dos porquês; 
  • e) aplicação/utilidade do conhecimento a ser produzido. 

3.2. Crítica humanizadora: identificar (ou estabelecer) na proposta sua posição quanto à 
  • a) aplicação/instrumentalização do conhecimento a ser produzido; 
  • b) interfaces interdisciplinares requeridas e diretrizes metodológicas; 
  • c) percepção do objeto e conceituação do fenômeno 
  • d) visão abrangente, panorâmica ou pontual do objeto?; 
  • e) identificação do sujeito com o objeto/alteridade com o objeto; 
  • f) compreensão dos porquês (≠ explicação/descrição) e implicações na transformação/manutenção da sociedade.

Observações:
  1. A atividade é aberta para alunos e não-alunos.
  2. Os alunos que ainda não leram o capítulo 3 devem ter vergonha da cara e serem mais responsáveis com as atividades mínimas de aula. Além de responder a uma pergunta extra: "O que eu estou fazendo aqui?"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O que é Ciência? Seminário aberto ao público


Amanhã teremos dois seminários na aula de metodologia que, pelo entusiasmo na preparação pelos grupos, prometem boas discussões sobre a ciência, a pesquisa, o universo e tudo mais.  Não é usual abrir um seminário de aula para o público, porém, com base no  acompanhei das atividades prévias, acho que a discussão será interessante para aqueles que se interessam pela discussão científica. 

A idéia inicial da disciplina era fazer um único seminário que articulasse algumas discussões do Cap. 3 d'Olhar no Espelho com as posturas de Khun e Popper. Os alunos acharam por bem subdividir o tema em dois grandes blocos que ocuparão a aula toda. Os grupos estão assim constituídos e disponibilizaram os seguintes materiais:

Grupo 1: " A ciência no discurso dos cientistas"
Integrantes (com links para os respectivos blogs): AndréaEduardo, Lauro.
Material de referência:


Grupo A: "Conversas entre Popper, Kuhn e Tomanik"
Integrantes (com links para os respectivos blogs):  LeonardoLuiz Carlos e Ronald.
Material de referência:


Data: 29-07-2010
Horário: 14h13min - 17hs42min
Local: auditório da FCI (localização)

Acessem o material de apoio dos grupos e compareçam. 

Se, por acaso, as expectativas positivas não se concretizarem podemos, como paliativo, e com a ajuda da platéia, fazer um breve workshop sobre "Empiricismo e anatomia experimental: dissecação medieval e as origens da ciência moderna". 

Não esqueçam, just in case, de trazerem aventais e escápulas.

domingo, 27 de junho de 2010

Vídeo introdutório sobre metodologia de pesquisa


Apresentação da disciplina de Metodologia de Pesquisa para o curso de especialização em Gestão de Segurança da Informação e Comunicações - UnB. O áudio está ruim e o foco é para a turma que fará a disciplina à distância, porém algumas questões comuns a qualquer pesquisa científica são levantadas.  Alguns dos fluxogramas lá utilizados já foram postados aqui anterioremente:

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Formulando uma pergunta de partida


O desenvolvimento de uma pesquisa de cunho científico resulta de uma vontade de conhecer algo. Tal vontade, porém, não se limita a uma simples curiosidade. Deve ser sistematizada e seguir rigorosos procedimentos. A pesquisa em ciência não pode ser limitada à busca de uma solução técnica para um problema. O foco principal reside na tentativa de melhor entender o problema, bem como de compreender os motivos do sucesso (ou do fracasso, se for o caso) da hipótese testada. O primeiro passo, então, é o estabelecimento de uma problemática que traduza, de modo adequado, essa curiosidade inicial.
Sugestão de atividade
1. Proponha uma pergunta “ingênua”.
2. Identifique o tema ligado a essa pergunta.
3. Colete informações básicas sobre esse tema (nessa fase de aproximação, não há muito rigor quanto às fontes de tais informações, isto é: wikis e outras fontes não-científicas servem, apenas nesse momento, para familiarizar o pesquisador iniciante com o tema).
4. Separe algumas indicações bibliográficas pertinentes ao seu tema (agora a literatura informal não vale mais). O ideal é que você busque materiais mais recentes em diferentes tipos de publicação (livros, revistas e teses). Provavelmente, você não encontrará nada que dê conta especificamente de seu problema. Não se preocupe e lembre-se de que você ainda está coligindo informações sobre o tema.
5. Após fazer um primeiro olhar nesse material, tente transformar sua “pergunta ingênua” em uma “pergunta de partida”.
O fluxograma abaixo visa esquematizar o processo:


Brasília: UnB: Gestão de Segurança da Informação e Comunicações, 2010;p.10.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Eduardo Tomanik e o que é ciência


Hoje o grupo de seminário abordou as discussões teóricas dos dois primeiros capítulos do livro "O olhar no espelho", de Eduardo Tomanik com a tese de doutoramento de Paulo Elian (baixe aqui). A proposta, bem executada, foi articular as definições dadas pelo material teórico com o desenvolvimento da pesquisa de Paulo Elian.

Algumas outras questões são colocadas pelo "O olhar no espelho", livro sempre instigante, que tem suscitado dúvidas nas pesquisas em fase de formulação, como pode ser visto no blog "Gestão e uso da informação" (ver post aqui).  Para ampliar o debate, sugerimos que cada pesquisador reflita sobre os tópicos abaixo, extraídos do livro do Tomanik, tendo como contraponto de discussão o próprio projeto:

CAP 1 - O que é ciência?
1.1. Ciência: Constantes transformações - identificar na proposta:      
a) possibilidades de mudança da realidade;          
b) possibilidades de novos campos em relação ao avanço científico da área;              
c) possibilidades de críticas;       
d) pertinência da proposta em relação às modificações da sociedade.
1.2. Objeto: necessidade de definição - identificar na proposta:           
a) qual é o objeto (tema) principal e quais áreas do saber estão relacionadas?           
b) idem objetos derivados.
1.3. Método: importância a do método para elaboração de novos conhecimentos e vice-versa - identificar na proposta::
a) possibilidades de elaboração de novos conhecimentos.
1.4. Objetivos/Razões: foco nos objetivos gerais, os motivos para se realizar tal pesquisa - identificar na proposta:             
a) grandes objetivos que pretende atingir;              
b) principais motivos para realizar a pesquisa;      
c) limites entre o que se quer e o que será feito.
1.5. Dificuldades: nem tudo são rosas, trabalho árduo, com mais fracassos que sucessos - identificar na proposta:             
a) principais entraves;   
b) possibilidades de fracasso;    
c) competências a serem adquiridas.

CAP 2 - Impressões equivocadas
2.1. Metodologia como conjunto de regras de apresentação: analisar na proposta:       
a) o papel que a metodologia terá para a formação de novos conhecimentos.
2.2. Metodologia como conjunto de regras de execução: analisar na proposta:               
a) o papel que a metodologia terá para a formação de novos conhecimentos.
2.3. Ciência com atividade obscura: analisar na proposta:     
a) em que medida não é um trabalho de “cientista maluco”, isolado do mundo, ou restrito ao resto da comunidade científica envolvida com os objetos de 1.2?
2.4. Ciência como atividade acadêmica: analisar na proposta:             
a) em que medida não é um trabalho cuja alcance não vai além da comunidade acadêmica envolvida com os objetos de 1.2.?
2.5. Ciência como atividade que domina a realidade: analisar na proposta:     
a) em que medida os métodos (1.3)  e objetivos (1.4) propostos pretendem “controlar” o mundo.
2.6. Ciência como portadora/construtora de verdades: analisar na proposta:   
a) em que medida os métodos (1.3) propostos pressupõem o estabelecimento de verdade prévias;     
b) em que medida os métodos (1.3) e objetivos (1.4) propostos buscam o estabelecimento de verdades.
2.7. Ciência como atividade neutra: analisar na proposta:     
a) o impacto político da proposta


A lista acima não é um questionário. Representa apenas um rol de possíveis pontos de reflexão a serem, eventualmente, desenvolvidos (ou não) pelos interessados, sob as mais diversas formas: comentário neste post, elaboração de paper, elaboração de postagem no próprio blog, excerto da reflexão teórica da própria pesquisa etc.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O papel do projeto de pesquisa na produção do conhecimento científico


O quadro abaixo visa representar um fluxo de produção do conhecimento científico. O projeto representa apenas a parte formal inicial de uma pesquisa de cunho científico. Ele é responsável por fazer a mediação entre o que o pesquisador quer saber e as informações que se pode construir a partir da realidade. Tais informações, devidamente sistematizadas, poderão dar origem a um novo conhecimento científico formal. Sem o Projeto, ou seja, sem a planificação de ações sistemáticas de prospecção de dados, o pesquisador não se diferenciaria de uma criança curiosa que busca entender um pouco mais sobre o mundo. O início do saber científico é a sistematização de uma dúvida e o seu aprimoramento na forma de Projeto.

Você já tem o seu projeto ou somente tem a cabeça cheia de dívidas?

Sugestão de atividade
  • Comente o fluxograma abaixo indicando, no seu caso:
a) quais as dúvidas;
b) qual a base empírica imaginada;
c) que ações imagina proceder com tal base empírica durante a pesquisa.

Fonte: LOPEZ, A. P. A. . Diretrizes para o desenvolvimento de projetos de cunho
científico
. Brasília: UnB: Gestão de Segurança da Informação e Comunicações, 2010;p.8.