CI-ÊN-CI-A
Thiago Gomes Eirão
Ciência palavra proparoxítona, substantivo feminino. Pronto! Assim pode ser definida ciência, talvez. Pode-se ir mais longe e encontrar a origem da palavra ciência, no latim, representado por scientia. Porém ainda é muito vago, ainda falta consistência para se entender o que realmente significa esta palavra. Certeza em ciência é algo relativo e totalmente provisório. No dicionário Houassis (2008) ciência é definida como
“Atividade humana baseada em conceitos e princípios desenvolvidos racionalmente e na utilização de um método definido, por meio do qual se produzem, se testam e se comprovam conhecimentos considerados objetivos e de validade geral: as novas descobertas da ciência”.
Agora sim ficou claro! Não? Talvez.
Ciência não se explica, ciência se experimenta, testa, comprova ou refuta, isto também é relativo. Nem toda ciência pode ser experimentada ou testada, qualquer generalização neste sentido corre o risco de cair em um erro. Ciência então pode ser entendida como o campo responsável pelo bem e desenvolvimento da raça humana? Será? Toda ciência é para o bem? Onde ficam os inúmeros artefatos de guerra desenvolvidos através das evoluções científicas? Bem de quem? Uma das definições mais comuns para caracterizar ciência é aquela que diz: para ser ciência é preciso um campo de estudo, um objeto, um método e objetivos. A busca por definições e explicações sobre o que seja realmente ciência, talvez não seja a melhor forma de entendê-la. O conhecimento científico está tão presente na vida das pessoas que seu entendimento talvez já seja tacitamente sabido. Então as pessoas fazem ciência em seu cotidiano? As pessoas “comuns” são cientistas? Sim e não.
Sim, pessoas comuns são cientistas. Não é preciso se enquadrar naquele rótulo dado pela arte do cinema que, cientista é aquela pessoa isolada do mundo, que se trancafia em um castelo, tem um monstrinho como ajudante e que numa noite chuvosa e de tempestade inventa algo que vai revolucionar o mundo. Qualquer pessoa pode ser um cientista e neste contexto talvez a experimentação possa ser um sinônimo de ciência. Já o não da afirmação anterior, diz respeito à indagação se as atividades das pessoas em seus cotidianos podem ser entendidas como ciência. Não se podem confundir problemas administrativos com problemas científicos, problemas de trabalho, geralmente, não costumam ser problemas do campo científico. Construir um robô capaz de imitar as expressões de uma pessoa, através de impulsos neurais transmitidos por ela mesma, necessariamente não configuram-se como ciência e neste caso, experimentação pode não ser sinônimo de ciência.
Outra coisa interessante neste rótulo de ciência são as grandes descobertas ocorridas em momentos de inspiração suprema dos cientistas. As invenções não surgem do nada, na realidade, elas surgem de um trabalho contínuo e árduo de pesquisa, teste, experimentação (de novo esta palavra!), erros e acertos. Cair uma maçã na cabeça de alguém ou alguém entrar numa banheira e descobrir leis da física é apenas um acontecimento pitoresco perto de toda pesquisa envolvida.
Uma das poucas certezas que se pode ter após esta reflexão é que não há consenso para o que seja ciência e aí ciência pode ser entendido por algo que se vive, convive e utiliza. O engraçado de buscar uma maneira simples, que explicite o que seja essa tal ciência e esse tal de conhecimento científico é que, cada vez mais se encontram dúvidas ao invés de ideias concretas. Alunos recém ingressados em cursos de pós-graduação ou até mesmos em programas de iniciação científica carregam consigo pelo menos duas certezas: uma definição construída na mente do que viria a ser ciência e que seu projeto de pesquisa é um item científico. A primeira certeza, no transcorrer da pesquisa aos poucos vai transformando-se em dúvida, para um pouco depois transformar-se em absurdo, algo fora da realidade. Para alguns ciência significa neutralidade, para outros o questionamento de questões físicas, por exemplo, a água que ferve, pode ser a maneira pela qual possa ser explicada a ciência. Até mesmo arremessar um giz na testa de uma japonesa qualquer, pode ser uma maneira de tentar mostrar a falibilidade da ciência. A desconstrução de tais ideias, geralmente, é acompanhada por uma tempestade de dúvidas e incertezas diárias, que para o bem ou mal, serve para mostrar que pesquisa, pesquisador são coisas e seres permeados de questionamentos, carências e de necessidade de respostas.
Já a segunda certeza, o projeto de pesquisa, esta sim é uma certeza que de chega a amedrontar seus criadores. Um projeto, geralmente, não chega inalterado no final do processo de pesquisa. Muitos ganham algumas dezenas de versões, outros são rasgados em milhões de pedacinhos, alguns morrem e renascem como outro projeto e outros, bem os outros estão completamente perdidos em alguma gaveta ou em uma pastinha bem escondida em algum notebook. O processo de pesquisa tende a sacudir a cabeça dos pesquisadores e o talvez e o relativo, talvez, sejam palavras que sempre martelam a mente dos mesmos.
Então qual a conclusão que se chega sobre ciência? Nenhuma! Conclusões são definitivas e restritivas, dois conceitos que, dificilmente, podem ser entendidos como sinônimos de ciência. Questionamento, dúvida e curiosidade, talvez, sejam palavras mais próximas do que vem a ser ciência e o saber científico. Talvez um dia, possa ser encontrado o denominador comum que defina ciência, mas, talvez, a dúvida é a que permitiu e continua permitindo que a ciência exista e se desenvolva. Mais isso também é outro talvez .
OBS: O uso de tantos “talvez” é proposital e pelo menos isto é definitivo