Nariz extremamente grande, tipicamente nórdico, olhos intensamente pretos, sobrancelhas grossas e um bigode que lembrava o seu José, o dono da padaria aqui perto da minha casa. O seu companheiro de conversa se apresentava com uma roupa vermelha, não muito apropriada aos padrões da moda, cabelos brancos e encaracolados, os olhos nitidamente claros, reforçados pelo reflexo daquela tarde ensolarada de domingo em Brasília. Foi assim que sentei ao lado da mesa onde Descartes sentia-se de certa maneira embaraçado pelos questionamentos feitos por David Hume, enquanto os dois tomavam uns Chopps e debatiam a natureza das ciências e suas implicações, no Libanus, aqui da 206 sul. Atento ao diálogo, percebi o tom claro em que Descartes exemplificava o seu método racionalista.
- Hume é simples, não complica, cara! Para se obter as verdades segundo o meu método racionalista é preciso pensar que se balance a árvore. A minha dúvida sobre as certezas que antes eu tomava como verdadeiras faz com que eu balance a árvore, e tudo aquilo que vai ao chão é jogado de lado e tido como falso. Em resumo, o que fica na árvore se sustenta como claro e distinto e pode ser tomado como verdadeiro. Thomas Kuhn - por falar nisso onde está ele que não veio? - chamaria de "paradigma" a estrutura das frutas que se sustentam, segundo as crenças de uma comunidade científica específica.
- Ok, ok. Mas o que sustento é que não existe conhecimento algum que possa ser demonstrativo, toda maneira de conhecimento é sempre provável e empírica. É preciso que eu realmente balance a árvore e não simplesmente pense como seria se eu a balançasse. Além disso, o que te faz ter a certeza de que o próximo Chopp que o garçom me traz esteja gelado? Provavelmente, o fato de ter vindo aqui várias vezes e tomado vários gelados faz com que, por hábito, tenha a segurança de que esse fato sempre ocorrerá. Logo, estando os objetos em circunstâncias já vivenciadas temos naturalmente a crença de que sempre ocorrerá as mesmas consequências, ou seja, o Chopp estará trincando. Mas nada exclui a possibilidade de que ele esteja quente e eu tenha que reclamar e pedir outro. E a isso nomeio "Conexão Necessária". Por isso afirmo que não há ciência, se por ciência entendermos conhecimento certo. Essa espécie de ciência pertence apenas às ciências demonstrativas, isto é, às matemáticas e à geometria. Por sinal, o Chopp está mesmo trincando. O hábito e a crença venceram mais uma vez. Vamos tomar mais um e depois continuamos a nossa conversa.
Fiquei ali de lado, observando o diálogo desses dois seres humanos que pareciam estar fora de contexto, numa outra época que não aquela, em pleno século XXI, assistindo a mais um jogo de futebol do campeonato brasileiro. Pelo jeito o Fluminense ia ser mesmo o campeão. O meu próximo passo não poderia ser outro, a conexão necessária, definida por Hume, mais uma vez se apresentava: "Garçom, uma cerveja e um copo, por favor!".
