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quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Evolução da Ciência


A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA

Rodrigo Fortes *

Como se faz ciência? pensar em termos de orientação científica e dos tipos de pensamento que estão envolvidos na difícil tarefa de responder a esta questão sempre nos remete a uma postura historiográfica.

Basicamente a lógica de conduta da ciência caminha por dois trilhos opostos. De um lado o ponto de vista de que a ciência é experimentalista e lógica, com o objetivo de criação de conhecimentos universais. De outro a possibilidade de observação de uma ciência falível, enveredando para uma perspectiva condicionada a um sistema histórico e sociológico. No entremeio desses dois olhares há uma mudança de foco na conduta do próprio desenvolvimento científico.

A ideia que sustenta o primeiro caminho apontado é a de que há uma lógica inerente a feitura da ciência. Abordagem que tem como maior expoente a figura de Karl Popper. Parte-se do pensamento de que dificilmente se pode confirmar ou infirmar uma dada hipótese pela experimentação (o sol nascer todos os dias não é suficiente para afirmar que nascerá daqui a 50 anos). Por isso ganha relevo o teste de falsificabilidade do autor. Jamais um cientista pode afirmar o que é verdadeiro por intermédio da lógica, mas sim apontar o que é falso por aplicação da experimentação. Assim, só o que é verificável pode ser considerado científico.

Será?

Historicamente há exemplos de que a verificação de falsificabilidade de uma hipótese não é suficiente para refutá-la em termos científicos. Havia uma anomalia na órbita do planeta mercúrio que impedia que tal fenômeno fosse explicado pela lógica da teoria de Newton. E dai, refutou-se a teoria? Claro que não.

Nos anos 60 do século passado, uma única experiência anunciou a descoberta da partícula Omega. Como assim, aceita com um único teste? Por que então tais teorias são aceitas na história da ciência? Pelo simples motivo de que são o elo que falta para fechar harmoniosamente alguma teoria. Por isso, a história da ciência não dá apoio à teoria popperiana da racionalidade científica.

A razão por que é assim que funcionam os paradigmas da ciência tem uma só explicação: a de que ela é feita por seres humanos. Não são deuses que fazem experimentos em tubos de ensaios isolados do momento histórico de feitura de sua aplicabilidade (ideia bem apresentada por Tomanik). São homens em sociedade, vivendo e sofrendo as realidades sociais a que estão integrados.

Esse seria o recheio que faz com que a ciência passe de uma tentativa lógica-experimental de explicação dos fatos para uma perspectiva condicionada ao fator histórico-social. Kuhn (1962) , no clássico A Estrutura das Revoluções Científicas, acentua a crítica e engrossa o caldo da discussão. Segundo o autor, um paradigma é aceito não porque ele resiste ao teste de falsificabilidade, mas sim porque uma comunidade X o aceita temporariamente. "Preconceito e resistência parecem ser mais a regra do que a exceção no desenvolvimento científico avançado (Kuhn, 1962)".

Ao que parece, o cientista está o tempo todo sendo aterrorizado pelo fantasma do sonho, da fantasia do perfeito possível. Mas ao acordar, banhado de água fria, fica querendo que os sonhos possam ser traduzidos pela insuficiência da linguagem humana. Assim o sonho vai sendo manchado pela vivência do real; pelos problemas que o cientista carrega consigo. E que seja assim. É a impossibilidade do sonho que transforma o real. E a noção do falível que nos traz a vontade de tentar.


* Rodrigo está na ponta final da escala evolutiva representada abaixo, fazendo mestrado em Ciência da Informação na UnB; também é responsável pelo blog "Usuáriosemarquivos!" e co-resposável (ou cúmplice) pelo blog "Diplomática e tipologia documental (UnB) - De re-diplomatica: novos usos à antiga arte". Acesse aqui seu Lattes.

7 comentários:

  1. A ciência é falível ou, pelo menos, passível de ser derrogada ao longo dos tempos. O Universo, o Planeta, a Sociedade e o Homem estão divididos em camadas. Atravessar cientificamente uma camada faz com que estejamos diante de outra, cada vez mais complexa, que requer uma nova forma de pensar, novos experimentos, muitas vezes até paradoxais em relação à camada anterior. Não há princípio científico permanente, intocável. Fazer ciência é constituir uma corrente infindável de renovações, de melhorias, de evolução. A busca sem fim por essa evolução exige colocar em questão tudo o que se sabe. E aí fica a pergunta: o que podemos afirmar ser verdadeiramente veradeiro? Uma pergunta um tanto quanto cepticista, não? Mas é isso, ou melhor, é o que você disse: "É a impossibilidade do sonho que transforma o real. E a noção do falível que nos traz a vontade de tentar".

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  2. É Fernando... é falível porque é humana, antes de tudo. Verdadeiramente verdadeiro? Nada puramente. Faço das minhas as suas palavras: "Não há princípio científico permanentemente intocável". Eu queria tanto que isso fosse observado pelos nossos colegas. E que tivéssemos mais espaços como estes para discussões dos "dogmas" acadêmicos. Abraços

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  3. Fernando,

    Não sei se concordo com essa ideia de camadas, a menos que você esteja se referindo a camadas esquemáticas (abstratas e absolutamente convencionais, assim como a ciência o é) que o Homem constrói para melhor conseguir se iludir que pode ser capaz de conhecer o mundo.

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  4. Ver em outro blog comentário meu sobre a falibilidade em ciência clicando aqui.

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  5. Pois bem, concordo plenamente que a ciência não esteja dissociada dos usos políticos, ou seja lá quais sejam os usos imagináveis da ciência; acho interessantíssima a abordagem que Nietzsche faz da ciência via moral. Nietzsche faz uma crítica duríssima à ciência que quer se ver acima de qualquer moralidade ou, mesmo, utilidade. Para este pensador é a moral que da valor à ciência. Para quê mais moralidade num homem que a possibilidade deste ter um controle seguro sobre o mundo através da sabedoria das coisas, dos fenômenos?
    Qualquer coisa de poder faz predominar os preconceitos e resistências a que se referia Kunh.

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  6. A ciência é verdadeira conforme quem (ou grupo)a faz e para quem faz... o que pode ser verdade absoluta para determinado grupo, poderá ser visto como algo que não mereça nenhum crédito por outro grupo ou ainda ser refutado. O valor da ciência está para quem a pratica, para quem a descobre. O sonho da solução e da descoberta é perseguido todos os dias, mas feitas por seres humanos e em um mundo de constantes mudanças, a verdade única e absoluta pode tornar-se um pesadelo.

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  7. Acrescentaria ao seu coment que essa verdade "grupal" é efêmera, transitória e historicamente marcada.

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