Ambiente virtual de debate metodológico em Ciência da Informação, pesquisa científica e produção social de conhecimento

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A ciência nua e crua


O que separa a simples indagação, ingênua, de uma criança - sobre, por exemplo, por que existe dia e noite -, de uma verdadeira pesquisa "científica"? Uma listagem das diferenças contemplaria inumeráveis itens; dentre eles, alguns relacionados à institucionalização da produção do conhecimento e à legitimação institucional do modo de produzir tal conhecimento. É isso mesmo, trata-se de legitimação dos métodos e de instituições legitimadoras de tais métodos e resultados; esse últimos, nessa acepção, importam muito pouco. A boa instituição é aquela que produz excelentes indicadores de, por exemplo, artigos publicados. Quem os lê e qual a qualidade dos mesmos são questões irrelevantes. Tentando solucionar esse problema, outros indicadores foram criados: por exemplo, sobre o impacto e as citações feitas aos textos. Novamente, ao invés de trabalhar com os objetos concretos, continua-se a lidar com simulacros do real, espectros do conhecimento, a ponto de, como sói acontecer nas instituições e práticas científicas, a representação passar a ser mais importante do que seu referido, em um círculo vicioso de reificação. 

A grande questão parece não ser a prática da substituição em si, porém o discurso falacioso, vazio e hipócrita de pesquisadores supostamente comprometidos com a produção de conhecimento científico social e historicamente relevante, mas que, na verdade, apenas se comprometem com suas verbas, as estatísticas e a legitimação de tal cenário por seus pares. Aos poucos que se esforçam para não jogar esse jogo, mesmo estando à mesa, geralmente restam três caminhos: o conformismo alienado, a resistência em trincheiras e a desistência honrosa. Um simples olhar para alguns colegas e espaços administrativos de qualquer universidade é suficiente para caracterizar o primeiro tipo. As trincheiras isoladas, a cada dia, graças às redes sociais e às TIC, conseguem começar a incomodar, porém, ainda de modo muito limitado em termos de escala. Muitos dos posts difundidos neste blog podem servir como ilustração de algumas dessas práticas de resistência, seja por eles mesmos, seja por situações e textos neles abordados. 

O post de hoje visa trazer à baila o recente protesto/denúncia feito por um estudante de doutorado que, após se cansar das práticas hipócritas e autolegitimadoras da academia, optou por largar o curso, escrevendo uma carta de desistência que permite discutir muitos aspectos interessantes sobre o fazer ciência, além de desnudar, despudoradamente, alguns mantos intocáveis da "academia". Sua carta, que é quase um ensaio (mas não seria aceita para publicação por nenhuma revista "tradicional", por não ter uma seção "metodologia") traz, além da introdução, as seguintes partes: (i) "Academia: não é ciência é um empreendimento"; (ii) "Academia: “Trabalhe duro, jovem Padawan, para que algum dia você também possa dirigir seu próprio laboratório"; (iii) "Academia: a mentalidade da cabeça"; (iv) "Academia: onde a originalidade te destruirá"; (v) "Academia: o buraco negro do oportunismo na pesquisa"; (vi) "Academia: estatísticas a granel"; (vii) "Academia: a terra selvagem dos egos gigantes"; (viii) "Academia: o maior truque jamais realizado foi convencer o mundo sobre sua necessidade".

A discussão sobre se é mais fácil fugir do que lutar escapa ao âmbito desse blog. O interesse recai sobre o texto apresentado e sua argumentação e não sobre a decisão pessoal tomada. 

Aceda ao texto original aqui e lembre-se, durante a leitura, da escola de bruxaria tão bem retratada pela autora de Harry Potter, cuja inspiração é, em boa parte, oriunda dos muros da academia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O que é Qualis?

Adaptado de Cinefalopatas
A pergunta parece tola para aqueles que respiram cotidianamente a pós-graduação brasileira, mas, em conversas, com muitos colegas, percebi que há muito desconhecimento no ar.

O Qualis é um sistema de rankeamento da publicação de artigos dos professores e alunos de pós-graduação brasileira e, supostamente, abrange TODAS as revistas onde publicamos, em qualquer área do conhecimento (coisa de louco...).

O sistema atual tem 7 estratos:
  • A1 - para periódicos de excelência internacional reconhecidos como relevantes no Brasil (pode haver periódicos nacionais na lista desde que tenham alcance internacional) 
  • A2- para periódicos de excelência reconhecidos como relevantes no Brasil (é um nível realmente muito bom para se publicar) 
  • B1 - B2 - B3 = em ordem decrescente de "qualidade" para o "resto" dos periódicos
  • B4 e B5 = periódicos bem mais inferiores no sistema de avaliação 
  • C = é periódico só na definição técnica, mas tem por atribuição avaliativa valor=zero 
O sistema é para avaliação de programas de pós e não de pessoas. Apesar dos elaboradores do serem contrários à utilização do para a análise currículos pessoais essa prática vem sendo cada vez mais utilizada. Por ser destinado a programas os Qualis de uma revista ou de outra podem variar entre as áreas. Por exemplo a revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos é B1 em Saúde Coletiva, porém, na área do programa ao qual eu estou vinculado (Ciências Sociais Aplicadas 1) ela é apenas B2. Ou seja, se eu, por acaso, publicasse um artigo nela, ele teria muito menor pontuação (para meu programa) do que se eu publicasse na revista Ciência da Informação, que é A2 na minha área e apenas B5 na área de História. 

Há uma regra de proporção que limita a quantidade dos que podem ser A1, A2 e B1, para, teoricamente, evitar que uma área acabe por nivelar por baixo sua produção e considerar quase que a totalidade de seus veículos como superiores à media. A aplicação de tal regra, no sistema atual também é vista como formalisticamente estagnadora do desenvolvimento dos programas, conforme defende João Pereira Leite em editorial da Revista Brasileira de Psiquiatria (veja aqui). Pelas definições, a soma de A1+A2 não pode se maior do que 25% dos periódicos nos quais cada área publica. Isso significa que nunca uma área poderá estar majoritariamente publicando em revistas de excelência, o que é corroborado pela outras duas regras de "qualificação":
  • a quantidade de periódicos em A1 tem que ser inferior à quantidade de periódicos elencados em A2; 
  • a soma de A1+A2+B1 não pode ser superior a somatória de todos os outros periódicos das demais categorias; ou seja não é possível que nenhuma área publique mais do que metade de seus artigos em revistas muito boas e/ou excelentes.
Maiores detalhes estão na página da CAPES (ver aqui), na qual há o link para a consulta dos periódicos na base de dados Qualis (não roda no Chrome, apenas no Firefox e no Internet Explorer).

Leia aqui outro post publicado neste blog sobre o Qualis.

domingo, 8 de maio de 2011

Administradores de Migalhas

Adaptado de imagem publicada em Migalhas

Administradores de Migalhas

José Flávio Sombra Saraiva

PhD, The University of Birmingham, Professor Titular da UnB, Coordenador
do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais /UnB (conceito 6 da
CAPES) e Presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais

O artigo As prioridades nacionais (ver aqui) é um bom depoimento ilustrativo. A avaliação sublinha o degradante do quadro.

Desconfio que estamos nos tornando, todos em nossas funções de gestores dos programas de pós-graduação, na nova e seguinte função: ADMINISTRADORES DE MIGALHAS. E ainda nos jogam uns contra os outros, como ratos à busca de queijos velhos espalhados no chão. Notei os olhares de desilusão e desespero naqueles pobres professores que estavam no Salão de Atos da Reitoria na mencionada reunião. Estão desesperados. Estão tristes.

Tiraram de nós, professores e cientistas, tanto a liderança científica quanto a soberania do saber em favor da burocracia tecnocrática. Eles ocupam cargos, gostam dos DASs e das diversões, viagens... Adoram procedimentos e matrizes desiguais apriorísticas, sem testes prévios nem razões plausíveis para suas planinhas e matrizes de cálculo. E já vem de antes isso...

E nós, na base, ficamos no seco e no esforço de produzir ciência em um país carente. A gente pode fazer tudo, menos POLÍTICA CIENTÍFICA, pois eles são os donos do pedaço e SABEM A VERDADE!!! Risos! Aprenderam nas cartilhas do Partido. Eles adoram eles mesmos seus cargos. Segue o retrocesso!

Insisto que está morrendo, gradualmente, a dimensão competitiva e contributiva dos cientistas brasileiros ao Brasil que imaginamos, com futuro altivo, premio Novel, em condições de estarmos no mundo, pelo menos ao lado de nossos competidores chineses, coreanos, alguns europeus, etc. Mas estamos perdendo campo diante do aparelhamento pouco meritorcrático dos cargos de gestão voltados para o fomento nacional para nossas áreas, inclusive no interior de nossas universidades públicas federais. Essas também se tornaram repartições públicas, sem criatividade, sem vontade de mover novas energias. São gestores sem coragem, olhanto o movimento da biruta política da Esplanada dos Ministérios.

Lamento, pessoalmente, o quadro e a fraqueza das almas pobres de idéias e forças de transformação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Será que o Web Qualis é o melhor indicador?

O sonho positivista de indexar o mundo continua cada vez mais presente na atual política de pós-graduação nacional. Não apenas indexar, porém classificar e valorar. Grosso modo a qualidade dos programas de pós é aferida por suas publicações em periódicos especializados. O problema reside em como valorar todos os periódicos potenciais de acolherem publicações dos docentes, alunos e egressos de um programa de uma dada área. A listagem disponível no sistema Web Qualis (acesse aqui), busca ser extensiva em relação ao universo das publicações informadas pelos programas na coleta anual de dados. Os critérios de valoração foram definidos após várias rodadas de discussões nos comitês de área e são aplicados a totalidade do universo em análise. Apesar das boas intenções, vários problemas estão intricados em tal sistemática:
  • As áreas não são homogêneas e os comitês jamais darão conta de representar a totalidade dos veículos de divulgação.
  • Não é possível valorar sem distorções a importância de cada veículo posto que os comitês de área não são homogêneos e existem muitas especificidades localizadas dentro de cada área.
  • Os critérios aplicáveis a uma área não são transponíveis automaticamente às demais.
  • O comitê responsável por valorar e classificar os periódicos não é formado por especialistas em cientometria e nem se dedica exclusivamente a tal tarefa.
  • O sistema dá valores distintos para formatos impressos e digitais dos periódicos, como se o conteúdo fosse diferente.
  • A inclusão de um periódico "fora da lista" é trabalhosa e nem sempre possível de ser feita em tempo hábil de ser avaliada.
  • Por essa razão algumas áreas estão apresentando uma concentração excessiva da produção em alguns periódicos, dificultando a ampliação do debate em novos veículos.
  • A valoração em periódicos listados na área desestimula o debate intersdiscilpinar e "desvaloriza" as publicações em veículos de outras áreas, mesmo que apresentem qualidades superiores.
Os pesquisadores nacionais são obrigados a manterem-se vigilantes em suas publicações e sempre checar o o Web Qualis antes da submissão de um artigo. Por não ser uma listagem elaborada por profissionais cientometristas, ela apresenta algumas distorções que confundem o autor desavisado. Vamos analisar, à guisa de exemplo, a revista interdisciplinar, da área de humanidades, Universum, da Universidade de Talca, no Chile. Esse periódico, na antiga tabela de avaliação da CAPES era valorada no topo, como "A Internacional". Entre uma submissão que fiz e a publicação do artigo a CAPES implantou uma nova sistemática e a revista passou a ser "B5", ou seja pouco mais do nada. Na revisão feita no ano passado a revista passou a ter duas classificações "B5" para a edição on-line, que circula mais, e "B1" para a edição impressa. Passou a apresentar importantes variações de área também. Para a História ela é "B1", mas apenas se o pesquisador prometer (não vale mentir) não ler o exemplar on-line. Para a Ciência Política e para as Relações Internacionais ela continua sendo "B5". Acredito que o pesquisador deve prometer (também sem mentir) que não estudará Ciência Política ou Relações Internacionais com visão retrospectiva à História. Na minha área há uma revista, cujo último número publicado é de 2008 "vale" "B3". Por essa lógica o artigo que lá publiquei (esse aqui) seria mais importante do que o da revista chilena (esse aqui); não para mim e não para o retorno que tenho tido com um e com outro.

A despeito da sempre controversa questão da avaliação e do ranqueamento, parece lógico que quaisquer ferramentas adotadas para valorar a pós-graduação em termos de produtividade deveriam ser elaboradas por profissionais para terem mais consistência. O laboratório SCImago dedicas-se à análise cientométrica de de publicações, repositórios universidades etc. (acesse aqui). No caso dos periódicos permite traçar diverentes gráficos comparativos, construídos com parâmetros mais qualitativamente consistentes que os do Web Qualis. São, sobretudo, atualizados, independentemente da demanda deste ou daquele pesquisador haver publicado em determinado veículo. 

Vamos a uma nova comparação. Os periódicos "Ciência da Informação" e "Perspectivas em Ciência da Informação" são os tops nacionais da minha área. Tal fato reflete-se no Web Qualis, que os situa no estrato "A2" no comitê de Ciências Sociais Aplicadas I. Entretanto, conforme a área e conforme o formato de divulgação, o estrato pode chegar até o vergonhoso "C". Os mesmos periódicos pela metodologia do SCImago podem ser analisados comparativamente pelas referências, citações, contribuições internacionais, quantidade de artigos etc. Mais interessante ainda é poder ver tal comparação ao longo do tempo, aspecto não previsto pelo Web Qualis, o que possibilita entender, em determinado período qual era a importância relativa de determinado periódico ao invés de ser forçado a analisar uma produção antiga, com dados atuais.

Os gráficos comparativos a seguir indicam a análise do SCImago feita nas mencionadas revistas quanto à colaboração internacional, média de referências e o indicador SCImago que buscar poderar as diversas variáveis analisadas (clique nas imagens para ampliá-las).
Colaboração internacional


Média de referências


Indicador SCImago

Como pode ser visto, a despeito, da classificação da CAPES, as 3 revistas apresentam alguns indicativos quantitativamente similares e, em ao menos um caso, bastante antagônico. Não se trata de defender esta ou aquela maneira de classificar e valorar a produção científica, porém alertar que, para além das soluções caseiras (e impostas), existem muitas outras, que são, inclusive, internacionalmente reconhecidas e que podem apresentar resultados mais detalhados e significativos.


Outra coisa mais do que necessária é pensar nos limites da própria classificação da produção científica, sobretudo quando tal classificação implica em rankings e consequentes rateios de verbas. É sempre bom lembrar que em qualquer sistema de classificação, por mais perfeito que seja, sempre há um ornitorrinco que põe em xeque a lógica da representação do mundo. Em ciência, os ornitorrincos, justamente por exigirem um constante repensar sobre a realidade, são elementos fundamentais para evitar a estagnação e para fazer com que a ciência continue a ser ciência.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A UnB é mesmo assim, ou as pessoas é que exageram?

foto com "legenda" adicionada, copiada de Ciência Brasil (ver post aqui)

Recentemente a UnB voltou aos noticiários,  não na seção de ciência e tecnologia e quase foi parar nas páginas policiais. Uma série de reportagens da grande imprensa sobre alguns gravíssimos problemas de comportamento estudantil e da postura da administração tem estado em evidência nos meios de comunicação de massa, o que tem gerado diversas manisfestações viruais (entre outras). O blog Ciência Brasil tem sistematicamente divulgado muitos desses problemas, inclusive antes deles chegarem às grandes redes (basta fazer uma busca por "corredor da morte" ali, ou clicar aqui). A própria instituição tem se utilizado de sua página oficial para tratar da questão (veja aqui o resultado da mesma busca, "corredor da morte" no portal da UnB). Os mais ácidos podem até dizer que as notícias no portal da própria instituição lembram a clássica piada dos operários suicidas (ver aqui), mas isso não está no escopo desta postagem. O fato é que a situação está tomando vulto com muitas fontes de divulgação: as deliberadamente contrárias à atual gestão da UnB; as da própria gestão e aquelas que nunca são neutras, mas que nunca dizem ao certo de que lado estão: a grande imprensa. 

foto copiada do Correio Braziliense (ver notícia aqui)


No meio de tal polêmica alguns alunos, que não são comprometidos com o jogo político interno da UnB também têm se manifestado, como pode ser visto em post no blog de Diplomática e Tipologia aqui.  A um dos comentários, com muita propriedade, não tenta tapar o Sol com a peneira, assume que o problema existe, mas pergunta qual é o interesse que move, constantemente, as grandes redes na divulgação (com um certo exagero) dos problemas da UnB. A comentarista diz que " (...)ainda é visível a superioridade da maioria dos cursos da UnB em comparação com os de instituições privadas do DF, o que indica o comprometimento dos alunos da instituição, não dá para avaliar e tachar a UnB apenas com o que a mídia se dispõe a mostrar" (Cf. comment de Fernanda Cândido aqui). Em parte ela tem razão e em parte não. Essa contradição é bem apontada por Adrielly Torres, a aluna autora da postagem em tela.

Desde que cheguei em Brasília tenho me surpreendido com a altíssima fama da UnB, que não é devidamente contrastada com um (salutar) exercício de auto-crítica. Há até quem diga (com alguma razão) que o Marcelo Hermes exagera nesse aspecto, porém suas críticas são, geralmente, muito pertinentes (ver exemplo aqui). Talvez ele exagere devido ao surpreendente silêncio dos bons :)  A Fernanda está certa quando compara a UnB com as privadas da região, ou mesmo com muitas outras públicas, de menor tradição espalhadas pelo Brasil. Pois é, dizem que em terra de cego, quem tem um olho só é rei. Mas, e se começarmos a comparar a UnB com outras IFES, como UFRJ, UFSC, UFRGS, UFMG etc.? A situação não é tão tranquila assim. A coisa é mais grave devido à história e à suposta vocação da UnB em ser A UNIVERSIDADE DO BRASIL. Isso sempre me impressionou por aqui: a incapacidade de tentar inserir a UnB em um panorama maior, que incorpore a discussão do paradigma do que é ser uma universidade de excelência e não o que é ser uma universidade melhor que as privadas locais. Falando nisso, alguém que conhece a BCE, da UnB já entrou na biblioteca do CEUB? É privada, tem problemas sérios para ser uma universidade de pesquisa, mas tem alguns pontos melhores resolvidos do que a UnB; detalhe irônico: a bibliotecária de lá foi formada na UnB.

O fundo da questão é exatamente esse: não queremos (eu e aqueles que defendem o que seja uma universidade de pesquisa séria - ver exemplo aqui) que a UnB seja uma instituição apenas formadora de mão de obra para o mercado (aqui, leia-se, concursos). Queremos que ela produza conhecimento e pessoas produtoras de conhecimento de ponta. Isso no Brasil, ainda é privilégio das universidades públicas, porque, via de regra (com honrosas exceções) as privadas ainda não conseguiram equacionar lucro com pesquisa e desenvolvimento.

Ficar só na comparação com as outras federais é desconfortável, porém pode-se ainda tentar pensar em algumas equivalências e em algumas similaridades. Mas, e se formos comparar a UnB com algumas estaduais importantes, que não precisam ser as paulistas? A distância começa a aumentar. Se começarmos a pensar sobre o que diferencia uma UnB de uma USP, é claro que haverá muitos fatores de ordem externa à administração da universidade, mas também haverá muitos fatores internos. Por exemplo: quem não é de São Paulo sabe que a USP tem, há mais de 20 anos uma rede integrada de biblioteca que congrega as mais de 40 bibliotecas de grande e médio porte? Será que as pessoas da UnB sabem que no campus da USP existe um ônibus interno, GRATIS, para que os alunos possam de locomover? São apenas exemplos que nos separam do resto do mundo. 

Comparar a UnB com as grandes universidades do mundo é praticamente impossível, mas e em um universo ibero-americano? Se tirarmos Espanha e Portugal a coisa fica mais ou menos assim:

  • 1 USP - São Paulo
  • 2 UNAM (México)
  • 3 UNICAMP - São Paulo
  • 4 UNESP - São Paulo
  • 5 UFRJ
  • 6 UBA - Argentina
  • 7 UFRGS
  • 8 UFMG
  • 9 U Chile
  • 10 UFSP
A UnB fica em 20º. Tudo bem aqui no DF, pois as outras duas melhores classificadas daqui são a Católica em 111º e o CEUB em 362º. Por isso que eu concordo e discordo da Fernanda. Rivalizar com USP,UNAM e UNICAMP é difícil, mas a UnB tinha a OBRIGAÇÃO de ser a melhor federal e teria condições de estar em um nível similar ao da UNESP. Isso não ocorre, principalmente, por motivos internos já que somos, provavelmente a mais rica das federais.

E se, além de deixarmos de brincar com os cegos, formos abrir um pouco mais os olhos. No mesmo ranking, incluindo Portugal e Espanha a situação fica assim:

  • 1 USP - São Paulo
  • 2 UNAM (México)
  • 3 UNICAMP - São Paulo
  • 4 U Barcelona - Espanha
  • 5 UCM - Espanha
  • 6 UNESP - São Paulo
  • 7 UFRJ
A UnB cai para 48, a UCB para 177 e o CEUB para 470. Olha como a Fernanda está correta: em uma perspectiva internacional, de longe a UnB é bem melhor (e bota melhor nisso) que as privadas daqui. Mas porque será que a URFJ praticamente não balança quando mudamos a comparação e a UnB desaba? Talvez seja porque sempre nos achamos o máximo quando nos comparamos com o nosso próprio umbigo.

Os dados de ranking indicados são do SCImago, de maio de 2010 (ver post e acesso ao ranking aqui). Prefiro esse ranking por ser elaborado mais de acordo com as especificidades de nosso perfil ibérico de universidade. Existe um outro ranking, mundial, que é tido como padrão: o Webometrics. Por ele as melhores iberoamericanas ficam assim, de acordo com a posição mundial:

  1. 71 UNAM México
  2. 122 USP - São Paulo
  3. 147 UCM - Espanha
  4. 184 UPM - Espanha
  5. 199 U Chile
  6. 202 UPV - Espanha
  7. 205 U VAlencia - Espanha
A UNICAMP está em 13º entre as iberoamericanas nesse ranking e em 239º no mundo. A melhor federal é a UFSC em 377º, seguida de perto pela UFRJ, que está em 386º. A UnB aparece na 681ª posição e as privadas daqui sequer configuram nessa lista, dando razão para todos aqueles que acham que a UnB é o máximo (ou nem tão ruim assim).

Como dizem por aí: o primeiro passo para resolver um problema é assumir que ele existe. Rankings são rankings e, portanto, sujeitos a várias distorções, mas, de qualquer modo, indicam uma tendência que não observamos porque insistimos em brincar de ser caolhos e continuar a reinar na terra dos cegos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Avaliação CAPES


O diretor de avaliação da CAPES informou, neste último dia 12, a existência de um ambiente web específico para a avalição dos programas de pós. A concentração, bem sistematizada, dos processos e documentos em muito auxiliará na adequação dos programas às diretrizes da CAPES, posto que sempre é mais fácil ser bem avaliado quando se tem mais clareza dos critério. Como um programa é feito também pelo corpo discente. Recomenda-se que a nova página seja acessada constantemente pelos alunos para que uma ação coletiva mais coordenada seja efetiva.

Espera-se ainda que com um ambiente específico o processo de avaliação seja mais transparente, evitando "perda" de informações, como a ocorrida com os dados do DataCapes de 2009, ano base 2008 e trazendo dados mais concretos, capazes de sustentar, para os avaliados, os resultados trienais.

Agora é ver para crer, na esperança de que a charge acima  torne-se, o mais rápido possível, initeligível para a comunidade de pós-graduação brasileira.

Acesse aqui a nova página da CAPES para avaliação.

Acesse aqui post anterior sobre categorização e representação da Ciência brasileira (afinal não dá para avaliar sem fazer isso).

Acesse aqui post anterior sobre ranqueamento de produção científica iberoamericana.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ranking Web de repositorios


Ranking Web de repositorios:
Edición de Julio de 2010

Isidro F. Aguillo  
HonPhD - Editor del Rankings Web

La segunda edición de 2010 del Ranking Web de Repositorios ha sido publicada coincidiendo con la celebración en Madrid del 5 Congreso de Open Repositories (OR2010). El Ranking está disponible acá.

La principal novedad es el incremento sustancial del número de repositorios analizado y la publicación de los 800 primeros de acuerdo a su presencia y visibilidad web. Además de los ya habituales repositorios temáticos (CiteSeerX, RePEC, Arxiv) encabezando la clasificación, los centros de investigación franceses (CNRS, INRIA, SHS) que utilizan HAL se aupan a las primeras posiciones. En cuanto a los españoles siguen encabezados por UPCommons (29), el Dipòsit Digital de la UAB (42) y Digital CSIC (45) que mantienen sus posiciones a pesar del incremento en la cobertura de repositorios.

A finales de mes se publicará la edición correspondiente de los Rankings de Universidades, Centros de investigación y Hospitales.

Comentarios, sugerencias e información adicional son francamente agradecidas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Qual seria a posição da UnB em um ranking ibero-americano?

 
O SCImago acaba de publicar o ranking ibero-americano SIR 2010, que inclui 607 IES que tenham publicado ao menos 1 artigo científico no período 2003-2008, nas revistas incluídas na base Scopus, abarcando mais 17.000 revistas. O ranking traz indicadores sobre a pesquisa nas universidades, analisando a produção de documentos científicos, a capacidade para realizar pesquisa em colaboração com outros países e a visibilidade/impacto científico da produção.

O ranking pretende ser uma ferramenta -- representativa e esquemática, porém significativa -- sobre a quantidade e qualidade das pesquisas desenvolvidas nas universidades ibero-americanas. Objetiva alcançar aos responsáveis pelas políticas públicas de fortalecimento à pesquisa no âmbito ibero-americano, assim como a esfera decisória dos programas de CT&I. Também é dirigido aos próprios gestores institucionais de recursos de pesquisa, como uma ferramenta de bechmarking.

Aqui no Brasil (para não falar do “grande” instrumento técnico que é o Guia do Estudante da Abril) continuamos com os fictícios relatórios do INEP, cujo acesso é sempre problemático, além dos indicadores produzidos pelo COLETA-CAPES...

Sugestão de atividade:

1. Antes de ler o relatório, indique qual a posição do ranking que você imagina para:
   a) USP;
   b) UNAM (México);
   c) UNICAMP;
   d) UnB.
   Lembre-se, são 607 posições e NÃO VALE espiar antes.

2. Acesse o documento na íntegra (clicando aqui), confira os resultados de seu chute e comente suas conclusões.