Ambiente virtual de debate metodológico em Ciência da Informação, pesquisa científica e produção social de conhecimento

segunda-feira, 26 de março de 2012

Compromisso Intelectual

A pergunta é muito simples: alguém tem dúvida de que o Brasil é candidatíssimo a ganhar a Copa do Mundo? Acredito que nem o mais fanático dos "hermanos" negará isso. Se perguntarmos quais as chances atuais de um Brasileiro ganhar um prêmio Nobel científico a resposta também será consensual, apesar de negativa. A questão de fundo não reside apenas nos "eternos" e "insolúveis" problemas estruturais da América Latina, mas também na ausência de uma mudança de postura intelectual, sobretudo na criação de amplas redes de produção científica compartilhada de qualidade, capazes de serem consolidadas aqui, na América Latina. Vivemos o "momento" do bicentenário da América, com as efemérides de 200 anos de independência mais ou menos próximas (Argentina e Chile em 2010, Paraguai e Uruguai em 2011, Brasil em 2022 etc.) e todos os países Latinoamericanos (uns mais do que os outros) apresentam problemas relacionados à pobreza, educação, segurança etc. Será que daqui a outros 200 continuaremos a nos preocupar com circo e pão, nos iludindo com os indicativos de produção científica, mas efetivamente, no geral, representando muito pouco na produção científica mundial? A mudança de atitude deveria já ter começado ontem, porém os resultados não serão imediatos. 

O investimento e o estímulo à formação de jovens como novos cientistas é cada vez mais crucial. Na última semana, o prestigiado intelectual chileno Eduardo Devés, que lidera o movimento Internacional del Conocimiento, teve uma conversa aberta com os estudantes de iniciação científica da UnB (ver chamada aqui), além de outros interessados presentes, sobre o manifesto "Compromiso Intelectual", que busca atingir a ambiciosa meta de 10.000 assinaturas (já são mais de 8.200) e sobre o 3º Congresso Internacional da Internacional do Conhecimento, o "III Congreso Ciencias, tecnologías y culturas: diálogo entre las disciplinas del conocimiento. Mirando al futuro de américa latina y el caribe: hacia una Internacional del Conocimiento", previsto para ocorrer em Santiago do Chile em janeiro de 2013. Nesse congresso há um espaço privilegiado para participação discente, além, de simpósios de altíssimo nível sobre os mais variados temas. (Veja aqui, à guisa de exemplo, nota sobre um dos simpósios do Congreso).

Foram mais de 60 pessoas que assinaram a lista de presença, a maioria estudantes bastante interessados em ter uma vivencia universitária que vá além da sala de aula e que ultrapasse os limites do campus da UnB e as fronteiras do Brasil. Veja aqui as fotos do evento.

Conheça melhor aqui o manifesto completo "Compromiso Intelectual" e aponha sua assinatura aqui.

EM TEMPO: Assista aos vídeos da palestra, gentilmente gravados e disponibilizados pelo Centro de Referência Memória Viva, no Fórum EJA, aqui.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Oportunidade para participação de alunos em Congresso no Chile


O Programa de Iniciação Cientifica do DPP/UnB promove nessa 5ªf, dia 22 de março, às 10h:00min, no auditório da Reitoria palestra com o professor Eduardo Devés, da Universidade de Santiago de Chile e coordenador do "III Congreso Ciencias, tecnologías y culturas: diálogo entre las disciplinas del conocimiento. Mirando al futuro de américa latina y el caribe: hacia una Internacional del Conocimiento"

Os congressos da Internacional del Conocimiento buscam abranger temas mais relevantes (e diversos) ligados à problemática de seu subtítulo (acesse aqui a convocatória geral do III congresso). O congresso faz parte do movimento Internacional do Conhecimento. cujos objetivos gerais são assim definidos:
  1. Contribuir com o diálogo e intercâmbio entre diversas disciplinas.
  2. Fomentar a discussão sobre a tarefa intelectual em uma Amárica Latina atrasa, no marco do Bicentenario.
  3. Gerar um grande movimento de coordenação que agregue pessoas e instituições que produzem e difundem o conhecimento para desenvolver as forças produtivas intelectuais
O movimento Internacional del Conocimento propõe, entre outras coisas articular uma rede de profissionais do conhecimento e da informação, transcendendo partidos, nações, associações, disciplinas e instituições. Uma grande rede que, acima das crenças e ideologias, se compromete com a qualidade do conhecimento e honestidade intelectual, convicta que estas são as chaves para o bem estar da humanidade, particularmente para a América Latina e o Caribe (acesse aqui o portal do movimento). Tais ideais foram melhor expressas em 2010 em um manifesto que pontuou 10 itens básicos para viabilizar a proposta (acesse aqui a página do compromisso intelectual 2010). 

No âmbito do Mercosur o movimento da Internacional del Conocimiento tem se proliferado em congressos mais localizados de grande porte, como é o caso, por exemplo, do ECHT (ver post aqui) através do movimento "Diálogos en Mercosur" (ver portal aqui).

Os congressos da Internacional do Conhecimento são multi e pluridisciplionares e representam uma excelente oportunidade para intercâmbio acadêmico e científico entre pesquisadores e alunos de diversas partes do mundo. O congresso atual conta com 60 simpósios que abrangem os mais variados temas (ver relação aqui), para os quais ainda é tempo de submeter resumos para participação. 

As datas-limite são as seguintes: 
    30/junho/2012: prazo para submissão de resumos; 
    31/agosto/2012: prazo para envio do texto final
    07 a 10/janeiro 2013: realização do evento em Santiago de Chile.

O congresso contará ainda com uma sistemática própria para a apresentação de trabalhos de alunos de graduação (ver página aqui), que terão direito a alojamento gratuito na Universidade de Santiago de Chile (devem trazer saco de dormir e material de higiene pessoal). A alimentação poderá ser feita no restaurante universitário com preços bastante atrativos.O prazo para envio de propostas de apresentação de alunos de graduação é 31/agosto. 

O evento internacional (no verdadeiro sentido da palavra) é uma excelente oportunidade para que os alunos do PROIC apresentem seus trabalho, em um país estrangeiro, com uma condição de custos bastante favorável , dando visibilidade aos seus trabalhos e, mais importante, compartilhando suas pesquisas com interlocutores. 

Não deixe de comparecer a palestra com o coordenador do III Congresso da Internacional do Conhecimento, Eduardo Devés, um dos mais prestigiado e produtivo intelectual latinoamericano da atualidade (baixar currículo aqui).

Data: 5ªf 22/03/2012
Horário: 10:00
Local: Auditório da Reitoria / UnB

terça-feira, 6 de março de 2012

Oficina Como Fazer - Construção e manutenção de blogs de cunho arquivístico


OFICINA COMO FAZER
CONSTRUÇÃO E MANUTENÇÃO DE BLOGS DE CUNHO ARQUIVÍSTICO 

Objetivos da oficina: capacitar os alunos para elaborar e manter blogs de cunho arquivístico com vistas a auxiliar a divulgação de pesquisas, de acervos e respectivos instrumentos, de informações institucionais.

Data22 e 23 de março de 2012 (5ª e 6ª feira)

Horário: das 9:30 às 12:30 e das 13:30 às 16:30 horas

Local: Departamento de História - FFLCH/USP – Av. Prof. Lineu Prestes, 338 (Cidade Universitária)

Docente: André Porto Ancona Lopez é especialista em arquivos e doutor em História pela Universidade de São Paulo. É professor da Universidade de Brasília, onde leciona, entre outras disciplinas, Diplomática e Tipologia Documental (http://diplomaticaetipologia.blogspot.com/) para a graduação em Arquivologia, e Metodologia de Pesquisa (http://metodologiaci.blogspot.com/) para o Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, do qual é o atual coordenador. Desenvolve junto ao CNPq pesquisa relacionada à discussão da organicidade arquivística de documentos fotográficos (http://digifotoweb.blogspot.com/) e participa do grupo de trabalho do Conselho Internacional de Arquivos sobre arquivos fotográficos e audiovisuais. Coordena, junto à Rede Iberoamericana de Ensino Arquivístico Universitário, blog destinado a amparar as ações de comunicação de tal rede (http://bieau.blogspot.com/). O currículo detalhado está em: http://lattes.cnpq/2683882609392455.

Público-alvo: o curso é direcionado a estudantes, arquivistas, técnicos, gestores, pesquisadores e demais participantes ativos de qualquer parte do processo arquivístico, com ou sem experiência em redes sociais.

Programa
  1. A web e a transformação nas relações de comunicação: da comunicação vertical para a 3.0.
  2. A transformação das redes sociais via web. 
  3. O blog como ferramenta das redes sociais. 
  4. Exemplos de blogs. 
  5, Como construir um blog (projeto e execução). 
  6. Estabelecendo a identidade do blog (interação, linguagem, imagens, layout). 
  7. Cuidados com direitos autorais e de divulgação. 
  8. Gadgets e recursos adicionais para aprimoramento. 
  9. Alimentação e manutenção do blog.
  10. Ampliação do alcance do blog nas redes sociais. 

Pré-requisitos: conhecimentos básicos de informática e de navegação na Internet com espírito inovador.

Metodologia empregada: breve exposição conceitual (1 a 3), apresentação e discussão de exemplos (4), aula dialogada e construção concomitante de blog pelos alunos, com amplo acesso de todos para todos.

Observações adicionais: é imprescindível que cada aluno traga o próprio computador/notebook com acesso à web. A ARQ-SP providenciará acesso wifi à Internet e às redes sociais.

Quantidade de vagas: 30 (trinta).

Valor do Investimento:
  > Profissional - R$ 400,00
  > Estudante* não sócio - R$ 200,00
       > Os sócios da ARQ-SP quites com suas anuidades** terão desconto no valor acima.
     >> Sócio profissional - R$ 300,00
     >> Sócio estudante* - R$ 150,00
OBS: 
 *Estudante regularmente matriculado em curso técnico ou de graduação.  Alunos de Mestrado e de Doutorado são considerados Profissionais, para fins de inscrição
  ** Somente os sócios quites com a anuidade de 2011/2012 terão direito ao pagamento com desconto
   
Inscrições até o dia 18 de março ou preenchimento das vagas.

REALIZAÇÃO SUJEITA A UM NÚMERO MÍNIMO DE INSCRIÇÕES.

Inscrições:
  1. As inscrições somente poderão ser feitas através do site ARQ-SP.
  2. O preenchimento e envio da ficha de inscrição antes do início do curso é obrigatório.
  3. Clicar no link correspondente à inscrição pretendida (Pessoa Física ou Pessoa Jurídica).
  4. Preencher corretamente o formulário e finalizar a operação clicando no botão "enviar".
  5. Efetuar depósito bancário no valor correspondente à categoria na qual se enquadra.
      > banco SANTANDER: agência 0658, conta corrente nº 13.007256-7;
      > titular da conta: Associação de Arquivistas de São Paulo.
  6. Enviar para a ARQ-SP uma cópia do comprovante de depósito, devidamente identificado com os nomes do interessado e do curso, por meio de:
      >Fax: (11) 3091-3795, aos cuidados de Hilda Vieira; ou
      > E-mail: secretaria@arqsp.org.br
  7. Obs: Pessoa Jurídica também deverá encaminhar cópia do comprovante de depósito, inclusive nos casos de pagamento por empenho.
  8. Aguardar e-mail de confirmação da inscrição no curso solicitado.

REALIZAÇÃO SUJEITA A UM NÚMERO MÍNIMO DE INSCRIÇÕES

Informações complementares:
  1. Estudantes de graduação e de cursos técnicos deverão encaminhar cópia do comprovante de matrícula do ano/semestre vigente para os canais de comunicação informados acima.
  2. Será concedido desconto de 20% (vinte por cento) para instituições que inscreverem três ou mais participantes para o mesmo curso, desde que o pagamento das inscrições seja efetuado antes do início do curso.
  3. Não serão aceitas notas de empenho para pagamento que exceder o prazo de 15 dias corridos do término do curso.
  4. Pagamento por empenho não tem direito a desconto.
  5. O envio da ficha de inscrição preenchida não garante a vaga no curso. Esta só estará confirmada após o recebimento do comprovante de depósito.
  6. Não serão feitas reservas de vagas por telefone, fax ou e-mail.
  7. Após o término das vagas ou ultrapassado o prazo mencionado no programa, o sistema não estará mais disponível para a realização de inscrições no curso.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Já que o Moodle continua fora do ar...

"Cego surdo e moodle" - Editado por André Lopez
Reproduções  não comerciais desta imagem são permitidas desde que citada a fonte. 
Há mais de um mês o "campus virtual" da UnB, que hospeda a plataforma Moodle, está fora do ar. Taí uma grande lição para o pessoal que lida com segurança da informação. Afinal a primeira letra do acrônimo DICA, refere-se à disponibilidade da informação. Tenho sido pessoalmente reticente ao uso da plataforma Moodle para minhas atividades didáticas, muito em função de não me disponibilizar a sair da minha zona de conforto de conhecimento tecnológico, reconheço, e em parte porque tal situação hoje representa um avanço às ferramentas didáticas tradicionais. Tenho, como é sabido de muitos, investido muitos esforços nos blogs como ferramenta de ensino-aprendizagem, o que tem permitido atender à contento minhas necessidades docentes, com um razoável nível de inovação e com um bom nível de retorno discente quanto ao cumprimento e superação dos objetivos das disciplinas universitárias (ver aqui, por exemplo, artigo sobre a experiencia no ensino de graduação do curso de Arquivologia).

Paralelamente às minhas idiossincrasias está no ar uma pesquisa que pretende analisar comparativamente algumas das funcionalidades das ferramentas didáticas mais populares aqui. Participe! O ensino universitário de qualidade só terá a ganhar!

Em termos práticos devo encerrar a análise dos projetos finais dos alunos do curso de especialização em Gestão de Segurança da Informação, turma 2011-12, que foi realizado majoritariamente em ambiente Moodle. Apesar de minha "implicância" com a ferramenta, optei por trabalhar de um modo híbrido, com algumas atividades e debates neste blog e o depósito dos primeiros trabalhos no ambiente Moodle. Deste modo o debate seria aberto e transparente e os projetos restritos para minha avaliação, ficando lá, supostamente em segurança, como registro do que foi realizado. Ledo engano. Desde o começo do ano tenho recebido e-mails de alunos indicando que o ambiente do curso em tela está inacessível. A informação "oficial" confirma isso, em função de reformas no laboratório que o hospeda, sem prazo definido para o retorno.

Alguns alunos estão se prontificando a enviar os projetos para meu e-mail. Parece uma opção válida se não fosse um verdadeiro contrassenso a alguns princípios básicos de segurança (abrir vulnerabilidade na minha máquina ao baixar anexos de uma turma inteira), depondo contra a capacidade que supostamente a UnB e a faculdade responsável deveriam ter por fazer a tão alardeada inovação didática do Moodle funcionar efetivamente. A alternativa "quebra-galho" gera ainda uma segunda ordem de problema no nível didático que é a minha incapacidade de cotejar diferentes versões dos projetos e analisar os avanços de cada aluno, posto que os produtos da primeira etapa estão perfeitamente de acordo com o final do mencionado acrônimo: ICA (íntegros, confidencias, autênticos), porém não disponíveis. 

O acordo com os alunos era manter as primeiras notas (que não sei quais são, pois estão lá bem guardadinhas) e analisar os avanços dos projetos finais para quem desejasse aumentar a nota. 

Dada a situação, a alternativa que utilizarei para o recebimento dos projetos finais de GSI é a seguinte:
a) não receberei projetos por e-mail; eles deverão ser colocados em alguma nuvem (isso vale também para quem já me mandou, porque senão o controle fica muito mais complicado);
b) o projeto anterior também deverá estar na nuvem, juntamente com meu comentário, caso eles tenham sido recuperados/copiados;
c) quem se lembrar da nota que obteve deve, por favor, indicar tal informação, lembrando que não adianta querer "dar uma de esperto", pois vou olhar ambos os projetos e sei reconhecer um eventual "upgrade" na nota inicial;
d) o campo comment abaixo deverá ser usado para indicação das urls do material virtual;
e) o prazo fica sendo 27/fev;
f) gostaria imensamente que a pesquisa mencionada acima fosse respondida aqui.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E-books: e a pesquisa como é que fica?

Copiado de Susanbca
Não há pesquisador que discorde acerca da importância das fontes de informação para a pequisa científica. Por excelência, tais fontes costumavam ser de natureza bibliográfica e gerenciadas (isto é: armazenadas, classificadas, organizadas acessadas etc.) em uma instituição construída para tais finalidades. Os OPACs, ou catálogos on-line, paulatinamente, foram modificando as atividades dos elementos humanos da relação pesquisador-acervo. O contato direto entre cientista e bibliotecário foi, pouco-a-pouco, sendo intermediada, e até mesmo substituída pelas TICs. O fenômeno agora começa a modificar também o ponto final do acesso do pesquisador; não mais o livro, porém o e-book; não mais a biblioteca, porém repositórios e catálogos de e-books. O profissional da informação, elemento primordial na catalogação (física ou on-line) também começa a deixar de ser essencial para a organização do acesso. Folksonomia, interação 3.0, wikis, social bookmarking etc. são alguns exemplos colaborativos nos quais os próprios interessados finais passam a organizar (ao menos em parte) a informação o modo de recuperação da mesma e, muitas vezes, o próprio acesso. Obviamente não se trata de decretar a extinção de um sistema complexo de guarda e disseminação de informação, já que há muitas coisas que ainda dependem exclusivamente do livro físico, porém de tentar entender a sua inexorável transformação em algo muito mais dinâmico. Veja aqui, post de Rodney Eloy, bibliotecário, sobre o tema.

As práticas bibliográficas da pesquisa científica também modificam-se bastante. Recordo-me do meu tempo de estudante de graduação, no curso de História da USP, no qual boas bibliografias sobre determinados temas eram "disputadas a tapa", para a elaboração dos trabalhos finais. Havia professores que marcavam entrevistas para analisar o levantamento bibliográfico que havíamos feito para selecionar materiais a serem utilizados no trabalho final. A realização de um levantamento desses levava várias sessões de algumas horas em diferentes bibliotecas para: a) pesquisar no catálogo e selecionar obras de interesse potencial; b) solicitar a obra ao atendente (não tínhamos acesso direto); c) esperar 5, 10, 15 min. pela obra ou pela informação de que ela não estava disponível (emprestada, reservada ou, muito comum, extraviada); d) analisar brevemente a obra e conferir se ela estaria no rol de interesse da pesquisa. No frigir dos ovos, a consulta a um simples livro, apenas para analisar sua pertinência na pesquisa, poderia levar até 30mim. Não é por acaso que nessa época (anos 1980) proliferam trabalhos de base bibliográfica bastante similar. A profusão de fotocópias dos materiais objetivavam garantir o acesso àquela informação em uma segunda oportunidade, eliminado a via-Crúcis mencionada.

No mestrado aprendi a consultar dicionários terminológicos, revistas e resenhas para melhor delimitar o universo a ser pesquisado. Mas, em termos gerais, a sistemática era a mesma, porém menos sofrida. As transformações no sistema, aos poucos foram facilitando os passos indicados acima. Um melhor controle da catalogação, do acervo e do acesso, possibilitados por antigas TICs passou permitir o acesso direto. Um sistema mais eficiente reduziu a questão do extravio, além de permitir consolidar informações sobre a existência/disponibilidade da obra em outras unidades do mesmo sistema. De qualquer modo, como uma boa fonte de pesquisa precisa, geralmente, ser acessada várias vezes, habituei-me, então, a manter comigo a informação original na íntegra; seja por meio de fichamentos (há técnicas importantes para isso), compra dos livros em sebo, compra dos livros novos (quando não encontrados em sebos) e fotocópias (quando não encontrada a obra para compra). Tudo isso consumia um tempo de pesquisa considerável. Tempo que não era perdido, pois criava-se o hábito de buscar coisas diferentes e de cotejar autores, conceitos edições, traduções etc.

À época do doutorado os sistemas OPAC das bibliotecas da USP foram de alta utilidade, pois, somados ao uso de buscadores na web para arrolar autores e obras de potencial interesse, permitia otimizar as idas às bibliotecas, chegando lá com as anotações precisas da referência e do acesso das obras desejadas; quase um "pick and go". Gastava-se bem menos tempo para chegar à informação, porém perdia-se muito do processo de analisar e tomar contato com outras obras não tão diretamente ligadas ao foco da pesquisa. 

Hoje a pesquisa bibliográfica assume uma outra faceta, apesar de ainda ser pautada nos mesmos passos. Parece desnecessário arrolar como os e-books e o acesso direto às fontes de informação otimizam e facilitam o processo. Como há profusão de materiais disponíveis on-line, há uma tendência natural a desprezar, ou não consultar, aquilo que demandará um deslocamento físico a uma biblioteca. O antigo fichamento, no qual (se feito corretamente) poderia permitir a localização rápida de determinadas passagens na obra que estivessem relacionadas a determinados conceitos é substituído por buscadores de termos e por anotações virtuais à margem dos textos. O acesso automático às determinadas partes do texto vem acompanhado de uma evidente superficialidade na segunda leitura (ou ausência dela). Em nome do pragmatismo e da eficiência perde-se parte do processo de maturação da leitura do texto. Não lemos mais textos completos porém excertos eficientemente acessados e replicados. O antigo exercício da citação sempre era acompanhado por uma atividade de cópia, caractere a caractere, do texto original. Esse processo, inevitavelmente levava à reflexão do que estava sendo copiado e à busca de passagens sucintas de alto significado.  Hoje é cada vez mais comum o exercício do recorta-e-cola apenas para "encher linguiça", sem uma necessária reflexão. 

A automação do acesso aos textos científicos representa uma enorme (gigantesca mesmo) eficiência nas práticas de pesquisa dos migrantes digitais, mas, e essa me parece ser a grande questão de fundo dos dias atuais, quais os impactos que trará para os jovens pesquisadores, nativos digitais? Uma geração não habituada à reflexão crítica das fontes (para ela wikipaedia, sites de jornalismo, revistas têm o mesmo valor se propiciarem a resposta desejada), não-habituada à frustração de dedicar horas para uma fonte que se revela não adequada (o hábito de "googlar" e ir clicando nos primeiros retornos de busca e descartar imediatamente os que aparentam não ter serventia). Mencionado por Eloy, Umberto Eco, fascinado pelo i-Pad, que lhe poupou esforços de mula de não ter que carregar 20 livros, certamente sabe realizar a crítica interna e externa dos documentos, apregoada por Langlois e Seignobos em 1898, sem cair na armadilha da neutralidade positivista, mas será que os novos pesquisadores, que estarão sendo forjados no universo da informação sem suporte físico aparente saberá?

Em tempo: além de escavar em minha memória a obra "Introdução aos estudos históricos" de Langlois e Seignobos, paro o exemplo do parágrafo acima, recorri a cópia xerox que tenho dela (a última edição brasileira data de 1946). Será que o nativo digital que queira consultá-la, mesmo que só por curiosidade, irá encontrá-la na web (não achei nenhuma versão on-line em língua portuguesa)? Ou apenas matará a curiosidade por meio das inúmeras "explicações" sobre o método positivista, facilmente encontráveis em um simples "googlar". Está lançado o desafio! 

As bases metodológicas sobre a organização de fontes empíricas para a pesquisa em história estão lançadas naquela obra, de mais de um século. A heurística, caracterizada como a busca de documentos para a História, terá importantes desdobramentos nas demais áreas das humanidades e traz conceitos fundamentais que serão apropriados parcialmente pelas ciências sociais aplicadas. Quantos são os arquivistas formados hoje que passam a ter um visão meramente panorâmica e preconceituosa sobre o positivismo histórico (o tópico é recorrente nas ementas de "Introdução à História", disciplina típica da graduação em Arquivologia) que jamais leram na íntegra (mesmo que traduzidos) textos de Langlois, Seignobos, Comte, Ranke etc.? Quantos são os Bibliotecários que, assumidamente ou não, defendem um modelo de pesquisa positivista sem nunca terem ido além dos populares manuais de pesquisa, fartamente disponibilizados na web, sem terem tido o prazer da leitura crítica de um clássico? Sera que os novos cientistas da Informação irão apenas se contentar com manuais sobre práticas de pesquisa ou será que irão se dar ao trabalho de buscar também os clássicos, mesmo que virtualmente inatingíveis?

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Complemento (25/2/2012 - 10:33 am): acabei de ler (aqui) no blog do colega Murilo Cunha, curiosa informação sobre detenta estadunidense que está processando a prisão pela suposta violação de seu direito de ter acesso a uma biblioteca jurídica, que lá foi substituída por um sistema de livros virtuais. A panaceia para muitos parece não ser tão universal, afinal de contas...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A participação discente em pesquisas em CI

Copiado de  Escher Italian Tribute
Recentemente o portal da UnBCiencia reproduziu nota sobre pesquisa de graduação da FCI relativa à publicação científica em nossa área. A nota indica que:
Uma pesquisa da Faculdade de Ciência da Informação (FCI) da Universidade de Brasília (UnB) constatou que a contribuição de graduandos na publicação de artigos científicos em periódicos de cinco áreas é maior do que se imaginava. Segundo o estudo, quase um terço dos artigos com mais de um autor publicados em revistas brasileiras de Arquivologia, Ciência da Informação, Biblioteconomia, Documentação e Museologia têm origem em trabalhos de conclusão de curso (TCC) ou iniciação científica (IC). 
Gabriela Bentes, estudante de biblioteconomia, descobriu que 32% do total de 109 alunos que assinaram artigos junto com um professor orientador desenvolviam trabalhos na graduação. A amostra veio de um universo de 638 artigos publicados em periódicos da área entre 2005 e 2009 - todos armazenados na base de dados Artigos ABCDM, da FCI, e assinados em parceria por orientador e orientandos. "O resultado pode ser um reflexo da intensificação das políticas de iniciação científica dos últimos anos", acredita Jayme Leiro, orientador do estudo.
O 7º WICI dedicou uma mesa específica do tema da pesquisa discente, na qual o Prof. Jayme Leiro expõe melhor os resultados do estudo e a ex-aluna Gabriela Bentes realiza depoimento sobre sua experiência de pesquisa. Assista ao vídeo da mesa do Fórum de iniciação à pesquisa aqui (é o vídeo com 01:55:40).

A íntegra do trabalho, que foi apresentado ao ENANCIB, pode ser vista aqui.

Veja aqui a íntegra da nota da UnBCiencia.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A volta da caça às bruxas ameaça o desenvolvimento científico

Copiado de "Megaupload"
Em 1940 os Estados Unidos iniciaram uma "cruzada" anti-comunista, encabeçada pelo senador McCarthy, que transformou-se em uma verdadeira caça às bruxas, com episódios lamentáveis de delação, perseguição e danos irreparáveis à produção artística, intelectual e científica. Hoje unanimidades mundiais, Chaplin e Orson Welles foram colocado em listas negras. Não se trata de defender este ou aquele projeto político, porém de analisar criticamente como a legitimação de procedimentos de exceção generalizados e aplicados indiscriminadamente acaba por ser muito mais danoso do que os efeitos do que se tentava combater.

Marx, no 18 Brumário, já alertava que a história acontece como tragédia e depois se repete como farsa. Hoje um conjunto de instrumentos legais, cujo acrônimo é SOPA, recentemente aprovados permitem que o governo estadunidense feche os sites que desejar com base em denuncias hospedagem de material "pirateado". Notem bem a semelhança assustadora que continua haver em episódios distantes no tempo mais de 70 anos: a denúncia é suficiente para desencadear ações punitivas. Em mais de 70 anos, não! Em mais de 300 anos se formos considerar que na época da inquisição algum "denunciado" dificilmente escapava da punição, não importando quais fossem os fatos. 

Copiado de "Log (WTF?)"
O fechamento recente do site do Megaupload é, infelizmente, o prenúncio de ações mais drásticas e danosas que irão comprometer seriamente a liberdade de expressão e o desenvolvimento de pesquisas ao redor do mundo. A questão principal é a responsabilização do site por ações consideradas ilegais por qualquer um dos seus participantes. Por exemplo, por conta do fechamento do Megaupload, trabalhos finais de curso de meus alunos de graduação não mais estão disponíveis ao público. Não apenas a liberdade de expressão foi vilipendiada, mas a ampla circulação de ideias foi totalmente comprometida. A lógica da SOPA é mais ou menos a seguinte: se o seu vizinho é suspeito de ser criminoso, você e todos os demais moradores do seu prédio ficarão em prisão domiciliar por tempo indeterminado, sem comunicação com o resto do mundo. A grande questão é que apesar da SOPA ter vigência somente nos EUA é lá que estão hospedados a maioria do arquivos.

A simplicidade do cartunista argentino Quino com sua personagem Mafalda bem ilustra a irônica e trágica situação atual.
Copiado de "Factoría Olaf"

A comunidade 2.0 e 3.0 mundial tem convocado protestos virtuais e sinalizado com boicotes, porém a representatividade da hospedagem de arquivos em servidores estadunidenses é deveras significativa e já está comprometendo seriamente importantes redes científicas de intercambio e construção de informação, conforme denuncia o prof. Dr. Zapopan Martín da Universidade de Sheffield:
"Caros colegas,
O periódico internacional, de acesso aberto e revisado por pares, "Critica Bibliotecologica: Revista de las Ciencias de la Informacion Documental" manifesta apoio aos cidadãos estadunidenses e aos usuários da Internet ao redor do mundo para protestar contra os seguintes atos dos EUA: SOPA (Stop Online Piracy Act), PIPA, e o Research Works Act feitos para dificultar a liberdade de informação na Internet e para dificultar o acesso e uso de informação por instituições mantidas com financiamento público!
Não ao SOPA dos EUA!
Não ao PIPA dos EUA!
Não ao Research Works Act dos EUA!
Não ao ACTA dos EUA!
E NÃO A QUALQUER LEGISLAÇÃO DRACONIANA DOS EUA (OU DE QUALQUER OUTRO PAÍS) QUE UNILATERALMENTE PRETENDA SUBMETER OS CIDADÃOS DO PLANETA A SEREM ESCRAVOS E CONSUMIDORES DE INFORMAÇÃO!!!!!!
JÁ É TEMPO DE OS CIDADÃOS DO PLANETA DESTRAVAR E QUEBRAR, POR QUALQUER MEIO, AS BARREIRAS À INFORMAÇÃO, AO CONHECIMENTO E À SABEDORIA QUE SÃO IMPOSTAS DE MODO IRREAL POR UM PEQUENO GRUPO DE GRANDES LADRÕES CAPITALISTAS E BURGUESES E POR VERDADEIROS PIRATAS DOS EUA, REINO UNIDO, CANADÁ, ITÁLIA, FRANÇA, ALEMANHA, JAPÃO, RÚSSIA E PELA MAIORIA DE SEUS GOVERNOS-FANTOCHES AO REDOR DO MUNDO, QUE EFETIVAMENTE ROUBAM E PIRATEIAM OS RECURSOS NATURAIS  DO PLANETA E AS CRIAÇÕES INTELECTUAIS E CULTURAIS PARA DEPOIS REVENDÊ-LAS AOS CIDADÃOS DO PLANETA A PREÇOS ESTRATOSFÉRICOS!!!!!!!!!!!!!!! 
A TODOS OS SERES HUMANOS QUE TÊM CÉREBROS E REALMENTE QUEREM UTILIZÁ-LOS:  VAMOS NOS SUBLEVAR E PROTESTAR EM CADA CANTO, EM CADA TRINCHEIRA AO REDOR DO PLANETA CONTRA ESSES GRUPELHOS DE LARÁPIOS CÍNICOS, CAPITALISTAS E BURGUESES ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS E TENHAMOS QUE PAGAR PELOS SINAIS DE FUMAÇA QUE IREMOS UTILIZAR PARA NOS COMUNICAR DEPOIS QUE NOSSO PATRIMÔNIO CULTURAL, CIENTÍFICO, TECNOLÓGICO E HUMANISTA FOR CONDENADO ÀS CINZAS PELOS ATUAIS LADRÕES CÍNICOS, CAPITALISTAS E BURGUESES!!!!!!!!!!!!!!!"
O furor do prof. Zapopan talvez seja um pouco exagerado (porém necessário) e reflete bem um risco real e de um processo que já se iniciou e que, certamente, terá consequências bastante perversas para a sociedade da informação no que tange à democratização do saber, seu acesso e construção dinâmica. Aqueles que quiserem melhor acompanhar o debate sobre a liberdade de expressão na Internet podem acessar a página da Electronic Frontier Foundation (EFF) e, em especial o artigo intitulado "Temos todo o direito de estar furiosos o ACTA". Para aqueles que ingenuamente creem que as novas normas dos EUA não lhes dizem respeito fica o antigo (e sempre atual) alerta:
Copiado de "Diplomática e Tipologia Documental - UnB"