Ambiente virtual de debate metodológico em Ciência da Informação, pesquisa científica e produção social de conhecimento

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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Educação escolar no DF ou como andam (mal das pernas) as bases da universidade do futuro



André Porto Ancona Lopez*

Na noite de sexta feira fui surpreendido com uma correspondência eletrônica do colégio de meu filho de 13 anos que apenas comunicava que, para dar mais espaço ao ensino universitário, o colégio cessaria suas atividades no final deste ano. A nota buscava justificar o injustificável buscando a autoridade de, pasmem, Paulo Freire e convocava para uma reunião explicativa no "dia 29/09, 5ªf" (sic). Basta olhar o calendário para ver que dia 29 é 4ªf. Será que ao longo dos 33 anos de experiência da instituição além do respeito ético com os pais e os educandos ela perdeu também a noção do tempo? 

Fechar (sem eufemismos hipócritas como "suspensão de atividades") o estabelecimento de ensino médio e fundamental em nome de ampliar o lucro do ensino universitário não tem nenhuma relação com Paulo Freire, apenas com Tio Patinhas. Por acreditar e confiar na proposta daquela instituição e por acreditar que ela era diferenciada das demais, com todos os onus advindos do processo, minha esposa e eu mudamos nosso filho de escola no começo de 2010. O motivo principal foi a escola anterior dele estar ampliando a infraestrutura do ensino superior e relegando o ensino médio e fundamental, o que nos desagradou a ponto de buscamos outra. Seria engraçado, se não fosse trágico, poder reproduzir o excelente discurso feito pelo novo colégio a respeito das diferenças entre projeto educacional e projeto empresarial! O que dizer sobre a formação integral pensada em educação e em valores. Confesso que fui ingênuo em acreditar que os valores aos quais aquela nova escola se referia não eram valores monetários. 

Onde está a ética ao comunicar por e-mail, em uma noite de sexta feira que nosso filho, mais uma vez, pelo segundo ano consecutivo, irá mudar de escola, e refazer todo o processo de inclusão, socialização e adaptação em um ambiente no qual os colegas já terão os laços de amizade consolidados? Qual será o impacto disso para o desenvolvimento dele? Será que isso importa à mantenedora (mais um eufemismo), tão hábil em recortar e colar Paulo Freire, posto que o impacto com o qual ela se preocupa é o financeiro. Cadê o compromisso educacional com a formação deste jovem que foi confiado (mediante pagamento) ao colégio? Pelo visto os valores monetários dados para tal relação se estabelecesse eram insuficientes para que o colégio fosse recíproco em relação à confiança que lhe fora depositada. O depósito que interessa ao colégio não é bem a confiança. 

A "reestruturação do campus universitário" indicada na carta é apenas mais um eufemismo para dizer que o espaço que hoje é ocupado pelo colégio será destinado à universidade. Exemplos como o do adulto maior tomando o doce da criança, do maior expulsando o menor, indicam os valores reais que regem as atitudes desta instituição e seu compromisso moral. A dúvida que fica em tal eufemismo é saber se as atuais salas de aula das crianças irão apenas ser ocupadas pelos estudantes adultos ou se um novo prédio será construído no local. Para essa última possibilidade talvez fosse o caso de o colégio pensar em construir uma caixa forte, assim Tio Patinhas não teria, nunca mais, que passar a vergonha de expulsar crianças não tão rentáveis de seus domínios. Talvez fosse até o caso de repensar a campanha publicitária da instituição com um novo slogan: "NÓS: FAZEMOS TUDO POR DINHEIRO", afinal as atitudes atuais não convergem com a "Visão" apregoada pelo colégio em seu site, ideal para dar uma pitada de ironia ao achincalhamento moral da instituição:
"O Colégio (...) busca formar uma sociedade mais justa, humana, fraterna e democrática, com seres humanos críticos, politizados, com ampla visão de mundo, capazes de superar os preconceitos sociais e usufruir de seus direitos e deveres.”
Claro, o colégio, Papai Noel e o Coelho da Páscoa...

O mais triste é que o colégio estava, de fato, fazendo um excelente trabalho e foi atropelado pelos interesses nada educacionais dos "empresários da educação", que apenas reflete a tendência atual da falta de rumos quanto ao pilar mais estruturante da sociedade A opção por fortalecer o ensino universitário, em detrimento de investir na qualidade do ensino médio e fundamental, além de ser lucrativa, dificulta a elevação do nível da universidade, porque cada vez mais nossos alunos chegam menos preparados -- e isso faz o negócio ser mais lucrativo ainda -- por quatro fatores: a) aumento de demanda, posto que o ensino médio é insuficiente para realizar formação técnica-profissional; b) barateamento do custeio, posto que alunos menos preparados não terão parâmetros para analisar o que lhes está sendo oferecido (e acharão que o guia Abril reflete parâmetros oficiais avaliação); c) redução de riscos com maior garantia de preenchimento de vagas, posto que o governo através de programas como o PRO-UNI reduz a inadinplência dos alunos; d) melhor relação custo-benefício por aluno, posto que as classes podem ser maiores, com necessidades de contratação de pessoal bem inferiores às exigidas na educação de menores de idade (auxiliares, psicológos, pessoal de apoio etc.).

Hoje, em Brasília, a maior rentabilidade do atendimento aos adultos em relação às crianças está levando o setor de pediatria à beira do colapso de atendimento. Depois da saúde parece que o processo começa a se repetir com a educação, com total omissão do estado. Não é por acaso que na mesma semana em que o GDF anuncia o fechamento de uma escola classe na Asa Norte inicia-se o processo de divulgação do projeto de uma universidade do GDF. Ao invés de se investir em educação básica de qualidade opta-se por investir no ensino de 3º grau sem considerar qual será o nível de formação inicial dos futuros universitários. Ao invés de ajudar a reduzir o processo de sucateamento da UnB como universidade pública de excelência, busca-se criar mais uma. No caso público, com um investimento menor têm-se mais Ibope; no caso particular com um investimento menor têm-se mais lucro.

Enquanto tudo isso acontece, a sociedade se cala, os economistas comemoram o sucesso da Bovespa e o Tiririca começa a escolher a mansão onde irá morar em Brasília. Será que eles pensam no sistema educacional no qual seus filhos, netos e bisnetos estudarão? O dinheiro , tanto das cuecas, como de nosso trabalho honesto e suado, não é mais capaz de comprar um atendimento particular pediátrico de qualidade por que o produto está em falta. O dinheiro não é mais capaz de comprar uma educação básica particular de qualidade porque o produto está ficando escasso. As consideradas boas escolas que ainda o oferecem, dada a demanda, o fazem de modo cada vez mais massificado e/ou -- como o recente caso de outra escola tradicional que não permitiu (de modo vexatório) que um aluno com botas ortopédicas participasse de um excursão porque elas não eram impecavelmente pretas -- confundem educação com treinamento disciplinar. Como diz a célebre frase dos índios norte-americanos, inúmeras vezes reproduzida por diversas entidades: "Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que o dinheiro não se come". 

André Porto Ancona Lopez é Prof. Dr. da Universidade de Brasília, integrante, como escotista, do maior movimento educacional (reconhecido pela UNESCO) do planeta e pai de um futuro ex-aluno (forçado) do Colégio CEUB.

Eis aqui a íntegra da esclarecedora correspondência da "mantenedora":

>Em 24 de setembro de 2010 20:11, Mantenedora do Colégio CEUB <colegioceub@educacional.com.br> escreveu:

Brasília, 24 de setembro de 2010.

Assunto: Suspensão das atividades do Colégio CEUB para o ano de 2011.


Sr. Pai ou Responsável,

            O Colégio CEUB, em seus 33 anos de existência, tornou-se uma instituição reconhecida por trabalhar com a educação em várias dimensões que promove aos seus alunos reflexões constantes da realidade circundante e o entendimento de sua importância na formação de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática, onde a sua missão é, também, ser feliz.
            Conforme Paulo Freire, na medida em que o homem cria, recria e decide, as épocas históricas vão se formando. Diante desse processo, mudanças tornam-se inevitáveis e, quase sempre, decorrentes de tomadas de decisões difíceis.
            Ciente do cumprimento do papel do Colégio CEUB na formação dos jovens durante todos estes anos, o Centro de Ensino Unificado de Brasília – CEUB, mantenedora do colégio, visando à reestruturação do campus universitário e à expansão do ensino superior com a implantação de novos cursos, resolveu suspender por 2(dois) anos as atividades de sua instituição mantida, a partir de 2011. Ao mesmo tempo, manifesta com orgulho, a sua gratidão ao  seu corpo administrativo e  docente que, com grande dedicação  ao longo desses anos, se empenhou em fazer cumprir a nossa missão.
            Agradecemos aos senhores a confiança que nos foi concedida e contamos com a compreensão de todos nesta difícil decisão. Assumimos o compromisso de proporcionar  meios que possam minimizar as conseqüências desta ação que se faz necessária no presente momento.
           Aproveitamos a oportunidade para convidá-los para reunião que ocorrerá no dia 29/09(quinta-feira), no auditório do bloco 1, nos seguintes horários:

- Ensino fundamental, às 17h30
- Ensino médio, às 19h30

Atenciosamente,

Getúlio Américo Moreira Lopes                     Lucia Maria Moreira Lopes de Oliveira
 Diretor presidente do CEUB                                     Diretora do Colégio CEUB

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Encontrado efeito positivo da 4ª CNCT&I


Parece a IV CTCTI (ver post aqui) não foi tão ineficiente quanto defendi antes. Foi o evento político necessário para que o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (acesse aqui nota do CONFAP sobre plenária ocorrida na IV CTCTI) pudesse viabilizar antiga aspiração de transformação na legislação referente às fundações científicas.

Recebi hoje o presente e-mail da FUNDECT, do Mato Grosso do Sul:
EXCELENTE NOTÍCIA!!!
Anexo o arquivo com a Medida Provisória Nº 495 publicada em 19 de julho de 2010. Ela é resultado de uma luta intensa e longa da comunidade científica nacional e foi encampada pelo CONFAP como bandeira fundamental para discussão na 4ª CNCTI. Sua publicação reflete uma grande conquista – e rápida.
Embora ainda tenhamos que nos debruçar sobre ela para ver todos seus aspectos, já fica caracterizado que a comunidade científica está sendo ouvida – para o bem do País.
Atenciosamente,
Fábio Edir dos Santos Costa - Diretor-Presidente FUNDECT
Marcelo A.S.Turine - Diretor Científico/FUNDECT
O triste é ter que concordar que sem a CNTCI é muito provável que a mudança legal jamais saísse do universo das boas intenções. Será que apenas de conferência em conferência (milionárias e feitas "para inglês ver") é que conseguiremos avançar nos tão prementes e necessários ajustes legais para a promoção do desenvolvimento científico e tecnológico nacional? O resultado é importante, porém fica muito aquém de uma política de Estado para a pesquisa científica. 

Outro aspecto relevante (e raro) é a concordância dos principais ministérios envolvidos: Fazenda, Educação, Planejamento e Ciência e Tecnologia (pela ordem das assinaturas).

Baixe o anexo aqui e deixe seus comentários no campo abaixo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

La Ciencia de la Información y Documentación en la UCM - España


Uma comissão de professores da Universidad Complutense de Madrid está, desde a semana passada, trabalhando intensamente com a Faculdade de Ciência da Informação (FCI-UnB) e o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCINF-UnB) em projetos concretos de cooperação científica, que abrangerão intercâmbio de professores, co-validação de disciplinas, coordenação conjunta de eventos e publicações  etc. Mesmo com a agenda extremamente concorrida, os profs. Maria Teresa Fernandez, Aurora Cuevas e Juan Antonio Martinez se dispuseram, dentro da aula de fundamentos da Ciência da Informação, a realizar um breve bate-papo com os alunos da pós e demais interessados. Em algumas conversas sobre o tema é possível notar que as concepções "complutenses" sobre a CI apresentam algumas diferenças em relação às concepções "unebeistas", o que aponta para um debate interessante.

A realização do bate-papo só será possível graças aos profs. Suzana Mueller e Tarcíso Zandonade, que concordaram em ceder parte da aula para o evento. Por essa razão o horário previsto será britanicamente cumprido.

Data: 21/07/2010 - 4ªf
Horário: 14h03min às 15h18min
Local: auditório da FCI (ver mapa aqui)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Avaliação CAPES


O diretor de avaliação da CAPES informou, neste último dia 12, a existência de um ambiente web específico para a avalição dos programas de pós. A concentração, bem sistematizada, dos processos e documentos em muito auxiliará na adequação dos programas às diretrizes da CAPES, posto que sempre é mais fácil ser bem avaliado quando se tem mais clareza dos critério. Como um programa é feito também pelo corpo discente. Recomenda-se que a nova página seja acessada constantemente pelos alunos para que uma ação coletiva mais coordenada seja efetiva.

Espera-se ainda que com um ambiente específico o processo de avaliação seja mais transparente, evitando "perda" de informações, como a ocorrida com os dados do DataCapes de 2009, ano base 2008 e trazendo dados mais concretos, capazes de sustentar, para os avaliados, os resultados trienais.

Agora é ver para crer, na esperança de que a charge acima  torne-se, o mais rápido possível, initeligível para a comunidade de pós-graduação brasileira.

Acesse aqui a nova página da CAPES para avaliação.

Acesse aqui post anterior sobre categorização e representação da Ciência brasileira (afinal não dá para avaliar sem fazer isso).

Acesse aqui post anterior sobre ranqueamento de produção científica iberoamericana.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Atividades desta 5ªf

Nesta 5ª, dia 01/07 teremos duas atividades da disciplina de Metodologia:

  • Assistir a uma defesa de dissertação de mestrado, como atividade optativa. Ver convite aqui.
  • Participar (não é só assistir) à mesa redonda sobre um grupo de pesquisa, como atividade obrigatória, no horário normal de aula. Ver notícia aqui.

sábado, 5 de junho de 2010

Intercâmbio metodológico na blogosfera


O blog de Metodologia CI iniciou intercâmbio com o blog Posgraduando.com colaborando em post relativo à elaboração de resenhas (veja aqui). É um blog bem mais organizado do que o nosso, com muitas dicas e piadinhas excelentes sobre pesquisa em pós-graduação. Tal humor só é superado pela atual política governamental de C&T. 




Júlio de Souza*


Algumas coisas na pós-graduação parecem funcionar como conhecimento indígena: são passadas apenas oralmente. O preenchimento do currículo Lattes, por exemplo. Ou você conhece alguém que sabe ou vai ficar com a dúvida.

Nesse sentido, o blog www.posgraduando.com tenta preencher essa lacuna, oferecendo dicas de sites, guias de como realizar as principais atividades da pós-graduação, sugestões de softwares estatísticos, histórias do cotidiano acadêmico, bem como a discussão de temas importantes.

O humor e a crítica também possuem espaço cativo no blog. Existem tantos pequenos absurdos que ocorrem na vida dos pós-graduandos e que, na maioria das vezes por serem corriqueiros, acabam desapercebidos. E não existe nada melhor que o humor e o senso crítico para evidenciar esses problemas e induzir a reflexão e o debate.

A política do blog é a de convocar e incentivar os pós-graduandos a colaborarem por meio do envio de textos (entre 500 a 700 palavras), resenhas críticas, guias, tutoriais, sugestões de temas, notícias, comentários, opiniões e histórias sobre a pós-graduação.

Sim, nós sabemos que a vida na pós-graduação é corrida, que existem os projetos, as aulas, os artigos e tudo mais. Mas existem por aí tantas experiências que poderiam ser compartilhadas e que seriam de grande auxílio aos seus colegas, sobretudo aos que estão ingressando agora.

Por um motivo assim tão nobre, vale a pena dedicar-se alguns minutos, não?


* Engenheiro agrícola, editor e blogmaster do 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Qual seria a posição da UnB em um ranking ibero-americano?

 
O SCImago acaba de publicar o ranking ibero-americano SIR 2010, que inclui 607 IES que tenham publicado ao menos 1 artigo científico no período 2003-2008, nas revistas incluídas na base Scopus, abarcando mais 17.000 revistas. O ranking traz indicadores sobre a pesquisa nas universidades, analisando a produção de documentos científicos, a capacidade para realizar pesquisa em colaboração com outros países e a visibilidade/impacto científico da produção.

O ranking pretende ser uma ferramenta -- representativa e esquemática, porém significativa -- sobre a quantidade e qualidade das pesquisas desenvolvidas nas universidades ibero-americanas. Objetiva alcançar aos responsáveis pelas políticas públicas de fortalecimento à pesquisa no âmbito ibero-americano, assim como a esfera decisória dos programas de CT&I. Também é dirigido aos próprios gestores institucionais de recursos de pesquisa, como uma ferramenta de bechmarking.

Aqui no Brasil (para não falar do “grande” instrumento técnico que é o Guia do Estudante da Abril) continuamos com os fictícios relatórios do INEP, cujo acesso é sempre problemático, além dos indicadores produzidos pelo COLETA-CAPES...

Sugestão de atividade:

1. Antes de ler o relatório, indique qual a posição do ranking que você imagina para:
   a) USP;
   b) UNAM (México);
   c) UNICAMP;
   d) UnB.
   Lembre-se, são 607 posições e NÃO VALE espiar antes.

2. Acesse o documento na íntegra (clicando aqui), confira os resultados de seu chute e comente suas conclusões.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Advertência do MMCT

Imagem: Iuzuri

O Ministério da Magia, Ciência e Tecnologia adverte que as eventuais críticas aos projetos aqui apresentados, feitas no blog ou em sala de aula, pelo professor, por alunos, ou por internautas, têm apenas o intuito de fomentar o debate, promover a reflexão crítica e auxiliar no processo de amadurecimento de cada pesquisa analisada. Não há nenhuma preocupação, interesse, ou perspectiva de "interferir" nas pesquisa. As dúvidas e incertezas que podem surgir de um processo crítico devem ser resolvidas por cada aluno em conjunto com o respectivo orientador. O amadurecimento de uma pesquisa e de um cientista deve, necessariamente, contar com um processo de ampla discussão e análise crítica que seja mais vasto do que o aconchego do direcionamento preciso, seguro e inquestionável do orientador. A ciência, por definição, é feita pela constante prática de questionamento das certezas. Um bom cientista deve ser capaz de receber críticas fundamentadas e utilizá-las como parte de seu processo de constante aprimoramento. 

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Educação: para onde vamos?


Continuando a discussão sobre os rumos da universidade brasileira, o Correio Braziliense de ontem publicou um ótimo texto de Issac Roitman sobre o papel da universidade para alavancar o desenvolvimento nacional e sobre a importância de o país ter uma postura real, condizente com o discurso, que até o momento, historicamente falando, não ultrapassou os limites da demagogia política. É importante ainda alertar para o perigo do investimento maciço, sem qualidade, no ensino básico às custas do sucateamento (estrutural e pessoal) das universidades públicas.

Sugestão de atividade:

Leia e comente o texto abaixo:
Educação: para onde vamos?
Isaac Roitman
Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e coordenador do Grupo de Trabalho de Educação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Na maioria dos países, os sistemas educacionais estão sendo revistos. Espera-se que a educação prepare os jovens para o mundo do trabalho, para sua independência econômica, para que eles possam viver de forma construtiva em comunidades responsáveis e para que possam conviver e compreender a diversidade cultural de uma sociedade que se transforma de uma forma muito rápida. Espera-se que a educação ajude os jovens a construírem suas vidas em um cenário de futuro que ninguém com certeza pode predizer. 
No Brasil, há muitas décadas todos os governos proclamam que a educação é sua meta prioritária. Proclamação demagógica e enganosa. Segundo todos os índices e pesquisas nacionais ou internacionais, a qualidade da educação brasileira é cada vez mais vergonhosa, constituindo-se como a maior das tragédias nacionais. O papel do educador enquanto facilitador da liberdade de aprendizagem para transformar socialmente os indivíduos não passa de uma intenção não concretizada na educação brasileira. 
Ainda durante 2010 o Congresso Nacional definirá o Plano Nacional de Educação (PNE), estabelecendo as metas e prioridades para o período de 2011 a 2020. A discussão será baseada nas proposições que deverão emergir da Conferência Nacional de Educação (Conae), evento que terminou no início de abril. Certamente, nossos parlamentares terão um cardápio de ações relevantes para a melhoria da qualidade de educação em todos os níveis. 
O PNE atual, assim como os anteriores, deverá pautar as ações necessárias em várias dimensões para mudar o cenário da educação do país: 1. Qualificação de professores com formação científica atualizada, adequada e comprovada; 2. Condições de trabalho que permitam a atualização permanente e acesso às metodologias modernas do ensino e aprendizagem; 3. Remuneração atrativa; 4. Substituição de conteúdos inúteis por exercícios de criatividade, crítica e de resolução de problemas; 5. Arquitetura escolar adequada; 6. Gestão eficiente; e 7. Avaliação interna e externa. Ou iniciamos agora uma verdadeira revolução na educação ou estaremos a lamentar nas próximas décadas ter perdido mais uma oportunidade de sermos protagonistas da transformação social que nosso povo merece. 
Sempre é bom lembrar e destacar que há algumas décadas vários países decidiram eliminar a tragédia da educação que os assolavam. Esses países não estavam em situação muito diferente da nossa. Vamos lembrar o exemplo da Coreia do Sul, que na década de 50 do século passado estava destruída por uma guerra civil que dividiu a Coreia ao meio e a maior parte da população vivia na miséria. Um em cada três coreanos era analfabeto. Hoje, oito em cada 10 chegam à universidade. 
A transformação começou com uma lei — integralmente respeitada — que tornou o ensino básico prioridade. Inicialmente, os recursos foram concentrados nos primeiros oito anos de estudo. Os frutos dessa decisão não demoraram a serem colhidos. O país começou a crescer rápido, em média, 9% ao ano, durante mais de três décadas. Hoje, graças à sólida massa crítica de cientistas que forma todos os anos, a Coreia está pronta para entrar no Primeiro Mundo, tendo como cartão de visita uma incrível capacidade de inovação tecnológica. 
Poderíamos pensar que os coreanos perderam a inquietação dos anos 1950. Ledo engano. Em dezembro de 2009, um documento foi elaborado pelo Ministério da Educação e Ciência e Tecnologia daquele país: Políticas e planos para 2010. Uma das metas seria o estímulo à criatividade na educação, sobretudo na básica. A meta envolvia a redução dos conteúdos e o incentivo ao domínio das linguagens, da matemática, dos estudos sociais e da ciência, da consciência da diversidade cultural, da habilidade para solução de problemas e da capacidade de trabalhar em grupos. 
Temos que decidir agora qual país legaremos aos nossos descendentes. Se nada fizermos, seremos no futuro uma sociedade com graves injustiças sociais, com índices assustadores de violência, com total desrespeito ao próximo e outras mazelas amplificadas que temos no presente. Certamente seremos um país colonizado e explorado. O futuro da educação está em nossas mãos. Cabe a todos nós decidir para onde vamos. 
Fonte: Correio Braziliense, 11/05/2010. p.19

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Esclarecimento sobre as eleições da ADUNB


O objetivo deste blog é ser um instrumento de apoio pedagógico, que fomente à discussão sobre metodologia em ciência. As questões institucionais são entendidas aqui como indissociadas do processo de produção de conhecimento científico. Uma das falsas polêmicas discutidas por todas as "facções" da greve é sobre a questão ser política ou jurídica. Na minha opinião, ambas e nenhuma, porque o ponto mais importante têm sido relegado que é o aspecto CIENTÍFICO. 
Fiquei positivamente surpreso com o link do blog estar presente em uma das chapas, a despeito de eu não haver manifestado publicamente meu apoio a nenhuma delas. Espero que algumas das questões que coloco aqui sejam, de fato, discutidas no âmbito da Associação de Docentes da UnB, que não pode ser apenas um movimento sindical, desvinculado das questões científicas. Tomara que esse tipo de atitude seja replicado e que, independentemente de qual venha a ser o resultado do pleito, a ADUNB passe a se preocupar também com as questões de fundo relacionadas à produção do conhecimento científico, que é a nossa principal expertise e obrigação como docentes de universidades publicas. A dedicação integral é pensada justamente para que possamos nos dedicar à pesquisa. Por essa razão, omito-me de declarar publicamente minha preferência por esta ou aquela chapa e, ao invés disso, busco fomentar o debate científico a partir das propostas de cada uma delas.

Sugestão de atividade:
Acesse as páginas de ambas as chapas e:
a) analise o espaço dado às questões científicas;
b) acesse os Lattes dos componentes e verifique se a vivência científica dos docentes-candidatos é condizente com as propostas científicas;
c) analise a existência de links extra-página que remetam para urls dedicadas à ciência e à pesquisa.

Eis os links de cada chapa:

terça-feira, 4 de maio de 2010

Qual é a universidade que temos e qual a universidade que queremos?

Em recente divulgação via blog o renomado professor Simon Schwartzman esboçou uma proposta para modificação da pós-graduação brasileira, com severas críticas ao sistema atual, baseado na extrema centralização pela CAPES. (acesse aqui o post no Simon's Blog; acesse aqui o texto integral). Tive contato coma a proposta dois dias após ter a ingrata surpresa de ver que meu contracheque deste mês não contemplaria o prometido pagamento das gratificações atrasadas, anunciado pela autoridade máxima da UnB (acesse aqui uma análise sobre a incongruência das informações oficiais e reais). O clima de ceticismo me acompanhou na leitura do documento do Prof. Simon. Na oportunidade fiz alguns comentários mais genéricos sobre as linhas mestras da proposta, mais voltados para problemas de implementação (acesse aqui os comentários, com a resposta do prof. Simon). 
Alguma horas depois o TRF deu perda de causa ao SINTUB, com decisão de corte de 26,05% dos vencimentos dos funcionários da UnB, com indicativo de ainda terem que ressarcir ao erário retroativamente os valores já recebidos. Isso equivale, grosso modo, que cada funcionário deve ao erário 1 ano de trabalho para cada 4 anos trabalhados. Como a ação dos professores ainda não foi julgada, nada impede que o mesmo tipo de olhar seja aplicado no nosso caso. A despeito da nota oficial da reitoria sobre o pagamento integral dos atrasados ainda sou credor da UnB de um valor importante para minhas despesas mensais, que fará com que nesse mês eu tenha que usar minha poupança para poder pagar minhas contas. Sou professor concursado de universidade pública, em tempo integral, desde de 1994. Oriento, publico, produzo e colaboro na administração para não conseguir fechar meu mês e ter uma ameça real (apesar de improvável) de vir a ter que dever cerca de um ano de salário pelo simples fato de ter trabalhado com dedicação??? Hoje de tarde, em conversa promovida pela ADUNB com os advogados que nos representam fiquei mais tranqüilo em saber que essa possibilidade é real, porém improvável. Por ela, eu teria acumulado em cinco anos e pouco de docência da UnB uma dívida de cerca de R$ 72.000,00 !!! Pode ser que o valor não esteja correto, mas dever por ter trabalhado é algo passível de denúncia sobre trabalho escravo às autoridades competentes. 
O que isso tem haver com a proposta do Prof. Simon? Tudo e nada ao mesmo tempo. Por um lado não dá para direcionar a vivência e as atividades científicas da universidade para as demandas economicistas e trabalhistas, sob o risco de cair no aparelhamento ideológico, que em nada contribui para o desenvolvimento da ciência. Por outro lado sem professores e funcionários ganhando dignamente (ou pelo menos não vindo a perder o não tão digno salário) não dá para ter condições mínimas de se produzir ciência. Durante a greve tenho tentado trabalhar nos blogs, na orientação de alunos e em pesquisa. No final de semana fechei um artigo que submeti hoje. O artigo foi finalizado tendo como pano de fundo boletins de greve, notícias confusas sobre o pagamento ou não de salários e, por fim, uma consulta bancária para ver de onde vou tirar o dinheiro para o mês. Será que outros professores universitários de países sérios têm esse tipo de preocupação? Será que é possível melhorar realidade brasileira de produção de conhecimento científico sem mexer na falida  infraestrutura universitária? Todo começo de ano recebo vários e-mails de ex-alunos de graduação que buscam conselhos para  desenvolver uma carreira acadêmica e serem professores universitários. Esse número cai a cada ano. Em 2010 uma ex-aluna, ao se inteirar da atual situação da UnB, simplesmente desistiu, me avisando que acha mais interessante estudar para algum concurso público, de carreira técnica. Hoje os alunos entram e saem do mestrado com um nível de leitura muito baixo, com poucas incursões à obras internacionais. A proposta do prof. Simon, mesmo que feita para começar no ano que vem, não terá efeitos imediatos. No período de 10 anos previstos muitos professores sairão da universidade sem serem substituídos à altura. Engana-se quem pensa que para fazer pesquisa e manter a pós funcionando bastam ter doutores. Doutores o Brasil tem produzido em uma quantidade acelerada, mas, como bem mostra o prof. Simon, sem um reflexo equivalente nos indicadores (sempre discutíveis, mas são um parâmetro) de produção científica.
O dito popular sobre o marido bêbado -- que afirma que é ruim com ele, mas pior sem ele -- se aplica bem à situação atual da UnB: se mantivermos a greve, lutamos por nossa dignidade, contra o sucateamento da universidade (e dos profissionais que nela trabalham), mas continuaremos a paralisar dois terços de suas atividades-fim (o ensino e a extensão) e a improvisar (mais ainda) com a pesquisa. Se voltamos, retomamos as atividades "normais", podendo até sonhar com melhores dias para a pós-graduação, porém assinando em baixo do achacamento sofrido pelos funcionários, que, se voltarem às atividades, estarão 35% menos motivados para desempenhar as atividades-meio, fundamentais para o bom (?) funcionamento da instituição. Por outro, lado, a persistência da greve, que começa a perder fôlego, parece ser incapaz de alterar esse quadro de coisas...
SUGESTÃO DE ATIVIDADE:
a) ler e comentar o artigo do prof. Simon;
b) indicar seu posicionamento quanto à pertinência ou não da continuidade da greve, seguido de justificativa. Aqueles que são favoráveis ao fim da greve podem assinar o abaixo-assinado blogal do Marcelo Hermes Lima clicando aqui.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sobre o controle acadêmico da ciência


A UnB recentemente ratificou a necessidade de que os projetos científicos, a serem por ela assinados, devam obedecer estritamente (sic)  à Instrução da Reitoria 01/2008, que disciplina (sic) a matéria. 

Em tese não deveria haver nenhum grande problema quanto ao estabelecimento de princípios e rotinas para que a universidade melhor executasse uma de suas atividades-fim. A exigência de que o projeto apresente relevância acadêmica (sic) tampouco deveria ser tema controverso. 

O nó da questão reside, porém, no julgamento de mérito (apreciação e aprovação - sic) por instâncias burocráticas, não constituídas para tal finalidade. Tais instâncias, a despeito de serem compostas por professores, não têm as qualidades científicas como requisito para a escolha dos membros. A qualificação é apenas administrativa e conjuntural (ser membro do departamento, ou ser indicado para o conselho ou câmara). Isso provoca os seguintes desdobramentos: 
  • o julgamento de mérito será efetuado por uma instância administrativa e não científica;
  • não existem padrões uniformes e claros, posto que a UnB não definiu formulário e critérios para tal (cada instância faz como achar melhor);
  • os pares que procederão ao julgamento de mérito necessariamente não dominam a fundo o tema (ou a especialidade) da pesquisa;
  • não há a possibilidade de debate simultâneo com os julgadores nas 2 últimas instâncias (como em uma banca);
  • a avaliação não é às cegas;
  • elementos externos à instituição (avaliadores ad hoc, por exemplo) não são considerados.

A segunda ordem de problemas é de natureza burocrática. Tramitar um projeto (com análise de mérito) pelo colegiado do departamento, pelo conselho da faculdade e por uma das câmaras, na melhor das hipóteses (com uma combinação favorável de calendário e de relatores), leva, no mínimo, um mês. A UnB, tampouco dispõe de uma política de controle de projetos de pesquisa e a multiplicação das instâncias administrativas (definidas na IR 1/08) não possibilitará que isso ocorra, pelo contrário. Outras IES, ao contrário, há tempos têm desenvolvido políticas institucionais nessa direção, sem aumentar a tramitação. Um exemplo interessante é o da Universidade Estadual de Maringá (UEM), além de ter um controle efetivo dos projetos de pesquisa da instituição (acesse aqui o sistema de gestão de projetos) , regulamentou a matéria em uma norma bastante clara (acesse aqui a resolução 110/05 CEP-UEM). Aqui na UnB, a experiência da UEM já foi inspiradora para o relatório de uma comissão do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, que, infelizmente, não avançou (baixe aqui o relatório da comissão).

O terceiro ponto diz respeito à necessidade de se tornar a julgar o mérito de algo que já foi analisado (com muito mais isenção e competência) pelo financiador da pesquisa. Nesse sentido, o Art 11º da normatização da UEM é bem interessante ao definir que: "O projeto de pesquisa aprovado por agências financiadoras, ou ainda aprovado pelo colegiado de programa de pós-graduação, mediante comprovação, deve ser encaminhado ao departamento apenas para ciência" (destaquei). Isso significa que os projetos já aprovados por organizações sérias não serão julgados pela universidade, esta, porém terá controle de que ele está ocorrendo. Há que se definir quem tem o direito de julgar o que, caso contrário todas as condições para a criação de um pequeno tribunal universitário inquisitorial estarão dadas. O que será que o Santo Ofício achava da relevância acadêmica das pesquisas de Copérnico e Galileu?

Como funciona isso hoje na UnB? Não funciona. Não há nenhum banco de dados com os projetos docentes e nem o CDOC tem uma política de recolhimento sistemático de projetos e relatórios finais. A ausência de institucionalização da pesquisa docente gera problemas para para os programas de pós-graduação que têm docentes sem projetos aprovados por agências financiadoras, uma vez que o item "participação em projetos" é muito importante para a avaliação da CAPES e nem todos os professores conseguem "lattesjar" (clique aqui para entender o termo) devidamente suas pesquisas. É preciso que a institucionalização não seja confundida com avaliação de mérito.

Já vivenciei, em toda sua plenitude, os 3 tipos de problemas que apontei acima: análise de mérito indevida (do que já havia sido aprovado), excesso de burocracia e gestão documental descontrolada. Quando encerrei minhas atividades na UEM e, na sequência, tomei posse na UnB, eu coordenava um projeto do edital universal, do CNPq. Assim que comunicado sobre minha nova instituição, o CNPq preparou termo aditivo que foi, prontamente assinado pelo reitor da UEM. Aqui na UnB o aditivo tornou-se um processo. O processo foi para o Serviço de Convênios e Contratos (SCO), que o encaminhou à Procuradoria Jurídica (PJU). Detalhe: o projeto nunca envolveu nenhuma contrapartida da UnB e todas as despesas eram feitas diretamente por mim, sem envolvimento de nenhuma outra instância. O parecer da PJU foi negativo e afirmou que o projeto, pelo tema, não atendia aos interesses da FUB. A PJU questionou ainda a legalidade de um professor com Dedicação Exclusiva coordenar um projeto junto ao CNPq. Depois de 40 dias, com reuniões e tramitação de outros documentos, finalmente a UnB se dignou a assinar o termo aditivo do CNPq. Na ocasião, por garantia, fiz uma cópia xerox do processo todo. Tive também alguma dificuldade para encaminhar ao CNPq o termo original (já assinado por mim e pela UEM), uma vez que ele havia se tornado parte do processo. Foi difícil convencer o responsável de que ele deveria ser substituído por uma cópia. Após a finalização da transferência formal da pesquisa para a UnB, tentei, em vão, encaminhar uma cópia do novo termo, com todas as assinaturas, para ser anexado ao processo: A SCO não foi capaz de localizá-lo. Ainda hoje sigo sem notícia sobre o processo da SCO. O do CNPq está encerrado, com todos os relatórios aprovados e, de "tão irrelevante" que era, foi desdobrado como minha pesquisa de produtividade e aprovado pelo CNPq (que usa avaliação ad hoc às cegas para julgar o mérito). Quem quiser conhecer o nova pesquisa é só acessar o blog do Digifoto.

O blog Ciência Brasil, além de se posicionar quanto ao tema, disponibilizou os links aos documentos da UnB. Clique aqui para ter acesso aos documentos, além de poder ler uma outra opinião sobre o tema.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Categorização e representação da Ciência no Brasil



A representação da ciência é dividida em um esquema hierárquico de grandes áreas, áreas, subáreas etc. Outro dia, ao lançar em meu Lattes uma produção que não cabia em nenhuma das arbitrárias subdivisões, percebi a impossibilidade de referenciar uma discussão ligada à Ciência em si. O Lattes não contempla a possibilidade de uma produção que abranja a Ciência como um todo e que não seja focada em uma área específica. É como se cada pesquisa fosse voltada para o próprio umbigo. Como se um furacão só pudesse ser objeto da meteorologia e não da psicologia (o medo que ele pode causar), da agronomia (suas implicações para a colheita) etc. Esse exemplo é do Eduardo Tomanik e está no excelente livro sobre metodologia "O olhar no espelho". 

Hoje recebi uma piada boba que traduz bem esse tipo de representação do conhecimento norteador da plataforma Lattes:
CIÊNCIA MODERNA:  
1. Se mexer, pertence à Biologia.
2. Se feder, pertence à Química.
3. Se não funciona, pertence à Física.
4. Se ninguém entende, é Matemática.
5. Se não faz sentido, é Economia ou Psicologia.
6. Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido, é Informática.
As categorias são tão bem definidas que talvez fosse o caso de sugerir um novo campo para o Lattes, no qual, para cada produção, haveria um formulário para ser clicado com as alternativas "mexe", "fede", "ninguém entende" etc.  O sistema poderia ser aprimorado de tal modo que tais cliques já indicassem automaticamente as áreas e subáreas do conhecimento, poupando-nos dos 4 a 5 minutos que gastamos hoje para apontar tais dados em cada área arrolada. Isso projeta, para um pesquisador com 30 produtos anuais, uma média de 450 minutos por ano, gastos apenas para indicar as subáreas de sua produção científica. É muito tempo para nada.

Apesar da evidente (e tola) provocação que faço aos meus alunos oriundos da TI, a questão é bem mais aguda do pode imaginar um iniciante em pesquisa científica. As métricas de produtividade pelas quais a produção científica nacional é avaliada são totalmente baseadas em esquemas artificiais que, ao invés de tentar representar a realidade, tentam fazer, paradoxalmente, com que a realidade se adeqüe à sua própria representação. Isto é: os parâmetros que tentam representar o que nós cientistas fazemos não condizem com as nossas atividades. Ao contrário, nós cientistas é que temos que nos adequar àquilo que foi arbitrariamente pré-definido pelas métricas da CAPES, embasadas nas categorias do Lattes. 

Todos os pesquisadores do Brasil gastam horas e horas, que deveriam ser dedicadas à pesquisa, preenchendo a plataforma Lattes. Os problemas conceituais de representação mencionados, além de um sistema pouco amigável e muito lento, induziram à criação de um novo verbo, que (espero) deverá brevemente ser incorporado pelo Dicionário Houaiss: 
  • Lattesjar: palpitar sofrido, longo e agoniante, resultante do processo de preenchimento da plataforma Lattes.
 Conjugação:
  • Eu (cientista) lattesjo. 
  • Tu (estudante) tens que lattesjar; 
  • Ele  (gestor da CAPES) não sabe o que é lattesjar;
  • Nós (trouxas) lattesjamos;
  • Vós (candidatos a trouxas) tendes que lattesjar ainda mais;
  • Eles (definidores da políticas de C&T brasileira) defendem o lattesjar porque não sabem o que é Ciência.

Um interessante texto do editor da Clinics, um conceituado periódico nacional, disponível na Scielo, aprofunda a questão das métricas da CAPES (acesse o texto aqui). O blog Ciência Brasil fez irônico (e sério) post sobre a questão à época da publicação pela Clinics (acesse o post aqui).

Uma conceituada pesquisadora da USP, cujo nome é referência unânime na Arquivilogia tomou uma atitude inédita, corajosa e radical: apagou toda a sua produção científica do Lattes, mantendo apenas os dados mínimos de identificação e titulação (já que algumas universidades - como a UnB-  exigem uma cópia do Lattes para  atestar a titulação para que um eventual membro externo possa participar de bancas, ignorando que quem atesta a titulação é um diploma, não o banco de dados que tem a representação dele).  Acesse aqui esse CV e depois googleie o nome da professora (entre aspas) para ver os resultados.

terça-feira, 23 de março de 2010

O que é uma universidade de pesquisa?

Uma universidade de pesquisa faz somente pesquisa ou também tem que formar alunos? As duas coisas! E uma ajuda a outra. Segue trecho de diálogo meu com uma aluna da pós, que soube identificar bem as qualidades da UnB, em comparação a uma experiência dela em outra IFES:
Aluna: E agora falo com propriedade ... não tem comparação as aulas que eu tenho na UnB com as aulas que tive na outra IFES ...
Vou para a UNB feliz, com prazer.. Volto para casa feliz, leio com vontade....
  Acho que até o final do mestrado eu supero meu período lá na outra UF 
Todos os meus profesores na UNB são excelentes, acima da média! Todos!!!!
  E 95% dos meus professores na outra IFES ficaram aquém do que eu esperava em um mestrado...
 Ainda bem que voltei para Brasília :)
  É sério, tanto que eu poderia pedir aproveitamento de créditos em metodologia, mas em conversa com meu orientador achei que seria melhor fazer. Também optei por fazer outra disciplina para não perder a oportunidade de ter aula com dois outros ótimos professores ...
  São aulas que eu tenho aprendido muito mesmo.
  Nunca tinha escutado falar do Milton Santos.... adorei o texto [BAIXE AQUI].. E assim vai, cada aula uma coisa nova que eu aprendo.
 O Fulano é pesquisador professor. É prolixo, mas é alguém profundamente culto, de uma experiência e carga de leitura impressionante. Aí temos que saber tirar o que cada um tem de melhor. E sempre que eu o procurei para falar de um tema ele tinha uns 3 autores para me indicar. Isso é o bom da UnB! Professores com carga de conhecimento muito alta.

eu: Concordo, pena que isso vai acabar. Ninguém mais assim vai querer ser professor para ganhar, com doutorado, menos que policial.
  
Aluna: a minha mãe é professora do GDF, saiu da sala de aula há 15 anos pelo menos. Mas sempre participiu das greves. Eu me lembro de uma camiseta de greve dela que me marcou profundamente... a frase era.. "Seu filho é educado para a vida por alguém que não ganha o suficiente para viver". No Brasil é assim .. do ensino fundamental ao superior.
 Crianças e adolescentes são educados para a vida. Universitários para o mundo profissional, para a pesquisa, desenvolvimento científico e tecnológico... Mas parece que ninguém se importa com a carreira do professor que tanto transmite aos seus alunos. É triste....
Professor, obrigada pela conversa! Estou torcendo pela conquista de vocês.
 
eu: Obrigado, mas se nós ganharmos (isto é se não perdemos e tudo ficar como está) quem ganha é a sociedade que continua a ter uma universidade de qualidade, como vc descreveu aqui.
Será que a UnB é tudo isso que a aluna está dizendo? Dê sua opinião e veja nota sobre isso em Ciência e Iluminismo